Diabo! E não poder arredar logo da vida aquelle ponto negro; apagal-o rapidamente, como quem tira da pelle uma nódoa de lama! Que raiva ter de reunir aos vôos mais fulgurosos da sua ambição a idéa mesquinha e ridicula d'aquella inconfessavel concubinagem! E não podia deixar de pensar no demonio da negra, porque a maldita ali estava perto, a rondal-o ameaçadora e sombria; ali estava como o documento vivo das suas miserias, já passadas mas ainda palpitantes. Bertoleza devia ser esmagada, devia ser supprimida, porque era tudo que havia de máo na vida d'elle! Seria um crime conserval-a a seu lado! Ella era o torpe balcão da primitiva bodega; era o aladroado vintemzinho do manteiga em papel pardo; era o peixe trazido da praia e vendido á noite ao lado do fogareiro á porta da taberna; era o frege immundo e a lista cantada das comezanas á portugueza; era o somno roncado num colchão fetido, cheio de bichos; ella era a sua cumplice e era todo o seu mal—devia pois extinguir-se! Devia ceder o logar á pallida mocinha de mãos delicadas e cabellos perfumados, que era o bem, porque era o que ria e alegrava, porque era a vida nova, o romance solfejado ao piano, as flôres nas jarras, as sedas e as rendas, o chá servido em porcelanas caras; era emfim a doce existencia dos ricos, dos felizes e dos fortes, dos que herdaram sem trabalho ou dos que, a puro esforço, conseguiram accumular dinheiro, rompendo e subindo por entre o rebanho dos escrupulosos ou dos fracos. E o vendeiro tinha defronte dos olhos o namorado sorriso da filha do Miranda, sentia ainda a leve pressão do braço melindroso que se apoiara ao seu, algumas horas antes, em passeio pela praia de Botafogo; respirava ainda os perfumes da menina, suaves, escolhidos e penetrantes como palavras de amor; nos seus dedos grossos, curtos, asperos e vermelhos, conservava a impressão da tepida caricia d'aquella mãozinha enluvada que, dentro em pouco, nos prazeres garantidos do matrimonio, affagar-lhe-ia as carnes e os cabellos.

Mas, e a Bertoleza?...

Sim! era preciso acabar com ella! despachal-a! sumil-a por uma vez!

Deu meia noite no relogio do armazem. João Romão tomou uma véla e desceu aos fundos da casa, onde Bertoleza dormia. Approximou-se d'ella, pé ante pé, como um criminoso que leva uma idéa homicida.

A crioula estava immovel sobre o enxergão, deitada de lado, com a cara escondida no braço direito, que ella dobrára por debaixo da cabeça. Apparecia-lhe uma parte do corpo, núa.

João Romão contemplou-a por algum tempo, com asco.

E era aquillo, aquella miseravel preta que ali dormia indifferentemente, o grande estorvo da sua ventura!... Parecia impossivel!

—E se ella morresse?...

Esta phrase, que elle tivera, quando pensou pela primeira vez n'aquelle obstaculo á sua felicidade, tornava-lhe agora ao espirito, porém já amadurecida e transformada n'esta outra:

—E se eu a matasse?