E o vendeiro empurrou a porta do fundo da estalagem, d'onde escapou, como de uma panella fervendo que se destapa, uma baforada quente, vozeria tresandante á fermentação de suores e roupa ensaboada seccando ao sol.
[V]
No dia seguinte, com effeito, ali pelas sete da manhã, quando o cortiço fervia já na costumada labutação, Jeronymo apresentou-se junto com a mulher, para tomarem conta da casinha alugada na vespera.
A mulher chamava-se Piedade de Jesus; teria trinta annos, boa estatura, carne ampla e rija, cabellos fortes de um castanho fulvo, dentes pouco alvos, mas solidos e perfeitos, cara cheia, physionomia aberta; um todo de bonhomia toleirona, desabotoando-lhe pelos olhos e pela bocca numa sympathica expressão de honestidade simples e natural.
Vieram ambos á boléa da andorinha que lhes carregou os trens. Ella trazia uma saia de sarja roxa, cabeção branco de panninho de algodão e na cabeça um lenço vermelho de alcobaça; o marido a mesma roupa do dia anterior.
E os dois apearam-se muito atrapalhados com os objectos que não confiaram dos homens da carroça; Jeronymo abraçado a duas formidaveis mangas de vidro, das primitivas, d'essas em que se podia á vontade enfiar uma perna; e a Piedade atracada com um velho relogio de parede e com uma grande trouxa de santos e palmas bentas. E assim atravessaram o pateo da estalagem, entre os commentarios e os olhares curiosos dos antigos moradores, que nunca viam sem uma pontinha de desconfiança os inquilinos novos que surgiam.
—O que será este pedaço d'homem? indagou a Machona da sua visinha de tina, a Augusta Carne-molle.
—A modos, respondeu esta, que vem pr'a trabalhar na pedreira. Elle hontem andou por lá um rôr de tempo com o João Romão.
—Aquella mulher que entrou junto será casada com elle?
—E de crer.