O vendeiro nunca tivera tanta mobilia.
—Agora, disse elle á crioula, as coisas vão correr melhor para você. Você vae ficar fôrra; eu entro com o que falta.
N'esses dias elle sahio muito á rua, e uma semana depois appareceu com uma folha de papel toda escripta, que leu em voz alta á companheira.
—Você agora não tem mais senhor! declarou em seguida á leitura, que ella ouvio entre lagrimas agradecidas. Agora está livre! De ora avante o que você fizer é só seu e mais de seus filhos, se os tiver. Acabou-se o captiveiro de pagar os vinte mil réis á peste do cego!
—Coitado! A gente se queixa é da sorte! Elle, como meu senhor, exigia o jornal, exigia o que era seu!
—Seu ou não seu, acabou-se! E vida nova!
Contra todo o costume, abrio-se n'esse dia uma garrafa de vinho do Porto, e os dous beberam-n'a em honra ao grande acontecimento. Entretanto, a tal carta de liberdade era obra do proprio João Romão, e nem mesmo o sello, que elle entendeu de pespegar-lhe em cima, para dar á burla maior formalidade, representava despeza, porque o esperto aproveitára uma estampilha já servida. O senhor de Bertoleza não teve sequer conhecimento do facto; o que lhe constou, sim, foi que a sua escrava lhe havia fugido para a Bahia depois da morte do amigo.
—O cego que venha buscal-a aqui, se fôr capaz!... desafiou o vendeiro de si para si. Elle que caia n'essa e verá se tem ou não para peras!
Não obstante, só ficou tranquillo de todo d'ahi a tres mezes, quando lhe constou a morte do velho. A escrava passara naturalmente em herança a qualquer dos filhos do morto; mas, por estes, nada havia que receiar: dous pandegos de marca maior que, empolgada a legitima, cuidariam de tudo, menos de atirar-se na pista de uma crioula a quem não viam de muitos annos áquella parte. «Ora! bastava já, e não era pouco, o que lhe tinham sugado durante tanto tempo!»
Bertoleza representava agora ao lado de João Romão o papel triplice de caixeiro, de criada e de amante. Mourejava a valer, mas de cara alegre; ás quatro da madrugada estava já na faina de todos os dias, aviando o café para os freguezes e depois preparando o almoço para os trabalhadores de uma pedreira que havia para além de um grande capinzal aos fundos da venda. Varria a casa, cozinhava, vendia ao balcão na taverna, quando o amigo andava occupado lá por fóra; fazia a sua quitanda durante o dia no intervallo de outros serviços, e á noite passava-se para a porta da venda, e, defronte de um fogareiro de barro, fritava figado e frigia sardinhas, que Romão ia pela manhã, em mangas de camisa, de tamancos e sem meias, comprar á praia do Peixe. E o demonio da mulher ainda encontrava tempo para lavar e concertar, além da sua, a roupa do seu homem, que esta, valha a verdade, não era tanta e nunca passava em todo o mez de alguns pares de calças de zuarte e outras tantas camisas de riscado.