«Minha vida tem desgostos,
Que só eu sei comprender...
Quando me lembro da terra
Parece que vou morrer...»
E, com o exemplo da primeira, novas guitarras foram acordando. E, por fim, a monotona cantiga dos portuguezes enchia de uma alma desconsolada o vasto arraial da estalagem, contrastando com a barulhenta alacridade que vinha lá de cima, do sobrado do Miranda.
«Terra minha, que te adoro,
Quando é que eu te torno a ver?
Leva-me d'este desterro;
Basta já de padecer.»
Abatidos pelo fadinho harmonioso e nostalgico dos desterrados, iam todos, até mesmo os brasileiros, se concentrando e cahindo em tristeza; mas, de repente, o cavaquinho do Porfiro, acompanhado pelo violão do Firmo, romperam vibrantemente com um chorado bahiano. Nada mais que os primeiros accordes da musica crioula para que o sangue de toda aquella gente despertasse logo, como se alguem lhe fustigasse o corpo com ortigas bravas. E seguiram-se outras notas, e outras, cada vez mais ardentes e mais delirantes. Já não eram dois instrumentos que soavam, eram lubricos gemidos e suspiros soltos em torrente, a correrem serpenteando, como cobras n'uma floresta incendiada; eram ais convulsos, chorados em frenezi de amor; musica feita de beijos e soluços gostosos; caricia de fera, caricia de doer, fazendo estalar de goso.
E aquella musica de fogo doidejava no ar como um aroma quente de plantas brasileiras, em torno das quaes se nutrem, girando, moscardos sensuaes e besoiros venenosos, freneticamente, bebedos do delicioso perfume que os mata de volupia.
E á viva crepitação da musica bahiana calaram-se as melancolicas toadas dos de além-mar. Assim á refulgente luz dos tropicos amortece a fresca e doce claridade dos céos da Europa, como se o proprio sol americano, vermelho e esbrazeado, viesse, na sua luxuria de sultão, beber a lagrima medrosa da decahida rainha dos mares velhos.
Jeronymo alheiou-se da sua guitarra e ficou com as mãos esquecidas sobre as cordas, todo attento para aquella musica estranha, que vinha dentro d'elle continuar uma revolução começada desde a primeira vez em que lhe bateu em cheio no rosto, como uma bofetada de desafio, a luz d'este sol orgulhoso e selvagem, e lhe cantou no ouvido o estribilho da primeira cigarra, e lhe acidulou a garganta o succo da primeira fructa provada n'estas terras de braza, e lhe entonteceu a alma o aroma do primeiro bogary, e lhe transtornou o sangue o cheiro animal da primeira mulher, da primeira mestiça, que junto d'elle sacudio as saias e os cabellos.
—Que tens tu, Jeromo?... perguntou-lhe a companheira, estranhando-o.
—Espera, respondeu elle, em voz baixa; deixa ouvir!
Firmo principiava a cantar o chorado, seguido por um acompanhamento de palmas.