Elle não insistio. Agasalhou-se de novo e pedio agua.

Piedade foi buscar o paraty.

—Bebe isto, não bebas a agua agora.

—Isto é cachaça!

—Foi a Rita que disse para te dar...

Jeronymo não precisou de mais nada para beber de um trago os dois dedos de restillo que havia no copo.

Sobrio como era, e depois d'aquelle despendio de suor, o alcool produzio-lhe logo de prompto o effeito voluptuoso e agradavel da embriaguez nos que não são bebedos: um delicioso desfallecer de todo o corpo; alguma coisa do longo espreguiçamento que antecede á satisfação dos sexos, quando a mulher, tendo feito esperar por ella algum tempo, aproxima-se afinal de nós, n'uma avidez gulosa de beijos. Agora, no conforto da sua cama, na doce penumbra do quarto, com a roupa fresca sobre a pelle, Jeronymo sentia-se bem, feliz por ver-se longe da pedreira ardente e do sol caustico; ouvindo, de olhos fechados, o rom-rom monotono da machina de massas, arfando ao longe, e o zum-zum das lavadeiras a trabalharem, e, mais distante, um interminavel cantar de gallos á porfia, emquanto um dobre de sinos rolava no ar, tristemente, annunciando um defunto da parochia.

Quando Piedade chegou lá fóra, dando parte do bom resultado do remedio, a Rita correu de novo ao quarto do doente.

—Então, que me diz agora? Sente-se ou não melhorzinho?

Elle voltou para a rapariga o seu olhar de animal prostrado e, por unica resposta, passou-lhe o braço esquerdo na cintura e procurou com a mão direita segurar a d'ella. Queria com isto traduzir o seu reconhecimento, e a mulata assim o entendeu, tanto que consentiu; mal porém a sua carne lhe tocou na carne, um desejo ardente apossou-se d'elle; uma vontade desensoffrida de senhorear-se no mesmo instante d'aquella mulher e possuil-a inteira, devoral-a num só hausto de luxuria, trincal-a como um cajú.