*NARCISO*

POEMA

a Fernando Pessôa.

*NARCISO*

Erram no oiro da tarde as sombras de estas ninfas!

E até onde irá o aroma dos seus gestos que sei tentam prender meus olhos que, funestos, sonham um esplendor fatal de pedrarias?

Tarde de tentação! Que estranhas melodias inquietam o ceo de um rumor ignorado? Seringe! Tua flauta arrosa de encantado e sangue de Ilusão esta tarde em demencia que a legenda recorda; e da immortal essencia do sonho esta hora antiga exhuma o velho idilio.

Ha mãos de festa e sonho em meu deserto exilio!

A Beleza é pra mim, ó ninfas! o segredo com que Deus me vestiu de Lindo!… Ai, tenho medo de morrer o que sou ás mãos desse desejo das ninfas; mas está a sombra que não vejo depois e antes de mim e, se afundo o olhar na ancia de me ver, só me vejo ao collo da Distancia! Deixai dormir um pouco o ceo nos olhos meus, eu não os quero abrir antes que os feche,—Deus!—

Ninfas! vós penteais o pavor á janella da minha alma atravez a hora sombria e bella. Corôas não serão sobre mim as de flôres que desfolhais, mas brancos braços de amôres que abrem nocturnamente e num paiz sem dia…