Por mim divaga o ceo. E morre um diadêma á minha fronte triste e pensativa, emblêma da alma palida como um velho pálio ou ouro… Comtudo que torpor me encosta ao sorvedouro c'mo esfinge que se inclina ao abysmo e debruça, a mirar a alma, irmã de um sonho que soluça? É que um gesto sem nome em minha alma se aclara, e no Jardim de Deus sou a ideia mais rara!
Meus gestos vão como esta agua sempre correndo pra a foz do nada; encosto a minha alma, tremendo, á voz da agua—cristal sonoro do alhear-me!—
No novelo de mim a minha ancia a enredar-me.
Ó agua sempre triste em seu ir pela parte da terra que é livida e c'mo alma que se farte de sonhos! Não será a minha sombra ausente um ar vosso—ou serei a imagem da corrente?
Quem descesse o mistério e visse a semelhança nesse intimo torpor das cousas, onde cansa essa fuga do tempo em sombra reflectida… Eu nunca terei dois gestos irmãos na vida, e se olhasse pra traz t'ria medo de mim… (Inter-lunio de nós no sonho d'alêm-fim…)
O que me reflectir roubará meu segredo.
O tempo escorre por nós como alguem com medo
por sobre um muro… Crio olhos de ser distante…
Na alma porei as mãos como por um quadrante…
As mãos são tempo… e tudo é um somno de si…
Miro-me, e não serei a sombra onde me ví?…
Ó espelho sem hora! Ó agua em somno, lustral, —espelho horizontal de tédio c'mo um canal sem ter fundo nem fim. Meu perfil sua dôr! Só me reflicto e não me vejo no torpor da agua que abana o tempo… ai, o tempo é a voz com que se acorda o medo—escultura de nós na distancia… Em rumor, na agua, vago demencia e durmo de Beleza ao collo da Aparencia, que foge como esta agua e este tempo a correr… Marulhar de mim no fundo do meu ser… Só as mãos sabem ter o ar de sonhos contin'os…
Ai! Se o olhar cai nas mãos, desenham-se destinos
como arabescos…
Abro os braços, mas em vão,
e ergo-me de mim com vestes de comoção!
Resta-me contemplar pela noite que inundo de mim, pendido sobre a aparencia do mundo. Minha sombra exilada esculto-a na doçura!