E, já que transpareceu na téla, d'elle me occuparei primeiro; mesmo porque o conheço mais de perto: de o ver passar na rua, e de lhe fallar ás vezes.

Conhecel-o não é ser seu amigo; não é seguir-lhe as ideias; não é pôr cobro á imparcialidade.

É pois—necessito que o creias—é sem lisonja, consciencioso, imparcial, que me abalanço a esboçar-lhe aligeirado perfil do retrato litterario, correndo a vista por esses arraiaes agitados e accesos em contendas porfiosas de litteratura.

A carta do sr. Anthero—primeiro grito de alarma—fez mais que mostrar-nos um talento, revelou-nos um caracter. A dignidade das letras—além de ser novo attestado do conceito em que tinhamos seu auctor, veio confirmar as ideias anteriormente expendidas.

Eis o que o sr. Ramalho Ortigão está disposto a não conceder por forma alguma.

Eu conhecia este escriptor portuense por um retrato grosseiro, traçado por alguns malquerentes, de que nunca se livrou o homem mais cauteloso, uma vez que tomou para{5} si a missão de julgar das cousas a seu bel-prazer, com franqueza ou sem ella, sem curar muito em se adequar ao gosto e sabor das multidões. Alguma cousa me dizia, porem, que o retrato tinha seu quê de infiel. E, com effeito, o escripto, que hoje me veio á mão, acabou de me desenganar.

O pequeno folheto do sr. Ortigão, pequenissimo para o grande titulo, que o decora, porque se chama—Literatura d'hoje, é um como espelho em que se não perde, me parece, uma feição do auctor. Elle mesmo mostra desejal-o, porque dá relevo, com frequencia e não sem calculo, á sua individualidade, como se lhe pesasse deixal-a nas sombras do quadro. É o homem das cidades, que se vae sentar, com o seu charuto, em frente do confortativo fogão com a paxorra de um sybarita, ancho como um professor, que legisla do cimo da sua poltrona o despotismo da palmatoria, terror dos meninos, que não sabem a lição. Na linguagem é, a meu ver, perfeito. Não cede livre curso á imaginação para não atropellar o bom-senso; nem, tão pouco, rebaixa a dignidade de escriptor á grosseria de termos plebeus. Suas ironias e sarcasmos são, por assim dizer, aristocraticamente petulantes e azedos. A palavra apparece rigorosa, e sem esforço, á evocação da ideia suggerida. E não é facil entrever-lhe brecha por onde possa infiltrar-se algum travor do ridiculo. Todavia fica a gente desconsolada por ver manchado todo esse asseiado composto na sordida pobreza de verdade.

Que me não queira mal pela sinceridade. É a minha unica arma. Veremos se saberei dar-lhe, com ella, plena satisfação em boas razões; boas ou más, consoante as tenho.

Mas, antes de ir mais longe, quero prevenir-te, meu Castello-Branco, de que não sou tão presumpçoso, que ouse criticar. Havia de fazel-o se soubesse. Assim, venho simplesmente fazer-te a innocente declaração do modo como avalio o escripto do sr. Ortigão em face dos escriptos do sr. Anthero.{6}

Este, disse eu, que, na sua carta, productora d'esses alvorotos revidos e impotentes, offerecera á luz do dia o fiel traslado do seu caracter. E quem deixará de ver do tumultuar harmonioso d'aquella magnifica phrase, naquella prosa eloquente, a declaração de intimas convicções, depuradas, pelo fogo da imaginação, num estudo aturado, serio e reflectido?