O sr. Anthero tem alguma cousa da inflexivel virtude do homem primitivo, que não cáe bem no ambiente, saturado de artificio e de impostura, em que vivemos. Vê até longe, pela intelligencia, os vicios e as degradações sociaes, e quer passar pelo meio d'elles impolluto, com a mão na consciencia, despreoccupado das glorias do mundo, sempre austero e sobrio. Sente, e diz o que sente numa linguagem toda d'alma, sem se importar com o agrado ou desagrado do sr. Ortigão. Bem ou mal acolhido nada parece ter com isso. Olha mais á dignidade do homem do que á chilra ostentação do litterato. Isso, porem, está longe de significar que saiba tragar um insulto com evangelica paciencia.

Ahi tens os homens e os escriptores.

Não digo que não seja falsa a minha apreciação. Se for, desde já rejeito o aphorismo bem sabido de todos—o estylo é o homem.

Mais um arredondamento e um colorido nas feições, e podemos seguil-os no combate.

O escripto do sr. Ortigão constitue uma galeria, enriquecida de retratos, que o auctor intenta caricaturar, esquadrinhando laseiras ou disformidades onde são perfeitas as formas, e velando chagas onde ellas são manifestas. Tem um modo seguro e dogmatico de dizer as cousas, que enrodilha e leva a imaginação descuidada na sinuosa compostura de bem jogadas palavras, dispostas com criterio um tanto acima do ordinario, e tambem com não ordinaria e decidida—má-fé. Desagradou-me, e desagradaria a todos,{7} a crueza sarcastica com que assetteia o sr. Castilho, que, de qualquer maneira que o apreciemos, seja elle como for, quaesquer que sejam as suas intenções, merece ser venerado pelos vastissimos conhecimentos adquiridos em tantos annos de estudo e, em parte, patenteados numa prosa, que ninguem excedeu ainda; ou mesmo, e principalmente, pelas traducções, que o sr. Ortigão menospreza, e que, todavia, são thesouros de riqueza para uma lingua, e modelos preciosos para os que aprendem. Nos seus livros tem elle—é crença minha—um escudo poderoso e magico contra o qual se quebrarão as armas mais bem temperadas de seus detractores. Attribuem-lhe, é certo, actos que o deslustram, pouco generosos, e pouco nobres, que poderiam ser filhos, como eu cuido, da simples e ephemera vaidade de deixar na sua passagem seu nome celebre, preso a alguma anecdota ainda mais celebre, que o fizesse lembrado na praça, no café, na familia. Não é raro encontrarem-se caprichosinhos de similhante jaez em agigantados talentos. São estes, porem, como a seara luxuriosa e medrada, que esconde e afoga, nas opulencias de seu viço, as enfezadas parazitas, que se lhe enroscam no pé, só visiveis a olhos de lynce, ou a olhos de alguem que, mal intencionado, de proposito as rabusca.

O litterato porem faz esquecer essas pequeninas cousas.

E, se a alguem, offendido, por qualquer motivo, assistia o direito de lhe exprobrar a culpa, esse, quer-me parecer, não devia ser nunca, quem não acha recursos na mais pura lealdade.

Não imagino que alguma cousa possa affligir e irritar tanto o melindre e vaidade do escriptor como a cavilosa estrategia do critico, que se afez a arrastar-lhe as ideias verdadeiras e boas no labutar de palavras, que elle torce e retorce, amoldando-as a contrario sentido com grave detrimento da boa hermeneutica. O sr. Ortigão, neste ponto, é critico muito para ser receiado.{8}

Como me distraem occupações mais serias contento-me em citar um ligeiro exemplo, dando de mão a algumas das asserções anteriormente aventadas, que eu me reservo confirmar quando m'o exijam. Isto, porque já me tarda a entrada no campo em que, Ruth de novo genero, me propuz respigar.

Saboreia tu, meu Castello-Branco, a estrategia, que abaixo descubro, e aconselho-te que pautes por esta todas as outras, que elle por ahi recortou em imagens de polpa, e por vezes elegantes.