Disse o sr. Castilho, criticando o Poema da mocidade, na fallada carta ao editor, disse que a poetica hodierna concede até certo ponto mesclar-se o burlesco pelo serio; e comprovou-o com a citação do D. João de Byron, do Diablo mundo de Espronceda, etc., accrescentando, em remate, que ao poeta, em questão (o sr. Chagas) não convinha imital-os.

Isto a proposito de certas desgraciadas e truanescas concepções, desenvolvidas em versos chocarreiros e unctuosos no malaventurado poema de supradicto poeta. Nada mais justo, e mais para se louvar, do que a delicada solicitude de mestre e de amigo com que o sr. Castilho reprehende sem offender.

E queres saber a conclusão tirada pelo sr. Ortigão? Brada que não pode ser aquillo tomado a serio; que o sr. Castilho zombava quando tal disse, e, muito mais, porque, decorridas poucas linhas, elogia aquelles versos tristes, que dizem que

as folhas seccas caiam
com leve bulha no chão,

versos comparados a outros versos tristes de Myllevoye.

E prosegue clamando que a autoridade d'este moço, de intelligencia quasi ephemera, é cruelmente anteposta ao{9} exemplo dos gigantes, que reformaram as litteraturas de Hespanha, Inglaterra e França.

Como se engana o sr. Ortigão! E como é para lastimar que a sua espiritada intelligencia se demore nestes sophismasinhos escholares!

O sr. Castilho não denota, numa palavra sequer, preferencia a Myllevoye. Nem ao menos o compara com Byron, Espronceda, etc. O que elle faz é aconselhar cortezmente o sr. Chagas a deixar o infatuado e infantil intento de seguir as pisadas de Byron. Aconselha-o como a prudencia aconselharia o temerario icaro da fabula a não se avisinhar do sol, se estimava em alguma cousa a tolissima existencia e as pobres azas de cêra. E já assim não acontece com Myllevoye, que o proprio esmiuçador portuense confessa, sem quebranto da historia, que era dotado de quasi ephemera intelligencia, e que portanto podia, com um pouco de exagero, ser apontado como norma, e servir mesmo de confronto ao sr. Chagas, que, apesar do afamado poema, tenho para mim que lhe não falta merecimento.

É por outra forma mais liza, mais portugueza, mais nobre, que o sr. Anthero encara na sua carta o chamado principe dos nossos poetas. Arrebatou-me aquella linguagem austera e verdadeira. Digo verdadeira, porque é sentida e franca, e não, de certo, porque o meu humilissimo entendimento ouse partilhar taes ou similhantes ideias.

Appareceu o athleta como era desejado, á maneira dos typicos luctadores da estatuaria grega; appareceu descoberto e desassombrado, porque vinha forte nas suas convicções.