Pois consente-se ao primeiro, que passa, a petulancia de reprehender com arrogante denodo o poeta, o talento, o grande homem, que, mais além, se reconhece digno das honras do capitolio[[3]]?

Ou é muito extravagante a tal boa sociedade, ou s. ex.ª está perfeitamente concorde com o sr. Anthero, e deve-lhe satisfação da affronta, caso lh'a não tenha já dado.

O que vale é serem estas cousas—não a expressão de um arraigado pensamento—mas, apenas, um culto prestado ás pompas do estylo.

Abria-se-me agora azo de as imitar, blazonando contra a natureza humana em geral, e, especificando, contra a natureza do sr. Ortigão.

Mas, como não sei, digo que préso a nobreza da minha alma e o meu pundonor de cavalheiro. E fica dissimulada a impericia.

Assim vae tudo.

O que realmente me parece digno de notar-se é que,{12} chafurdando em contradicções, tenha ainda folego o sr. Ortigão para as esmerilhar nos outros.

Atropelando desabridamente cortezia e conveniencias começa elle, em termos raivosos e empertigados, a explicar os motivos que levaram o sr. Anthero a louvar no opusculo—Dignidade das letras—o drama Camões do sr. Castilho, que anteriormente, na carta, lhe tinha espesinhado, com todas as obras, em verdadeiro furor de iconoclasta.

Com um pouco menos de apaixonado seria outra e mais decorosa a explicação.

Não concebo a critica sem reflexão e boa-fé. Quem poder dispor d'essas indispensaveis condições leia a carta—Bom-senso e bom-gosto, leia o opusculo; e confronte-os, depois de compulsados em separado. Então verá que nem ha sombras de contradicção.