O sr. Anthero entendeu que estavamos na idade de sacudir tutellas oppressivas; e disse-o, animando a revolta.
Se fez bem ou mal nada tenho com isso.
Na dicta revolta mediu a santidade do idolo pelos milagres feitos, pelas obras, que lhe formavam o pedestal; e não colheu senão—algaravia, estonteamento, banalidade, ninharia; palavras compridas, que deviam de assanhar philantropicos brios.
Mas isto, visto assim syntheticamente, em grande, não quer dizer que não houvesse possibilidade de descobrir-se pela analyse uma formosa baga de ouro num monte de pedregulho; um lado fresco e saboroso num pomo dessorado.
No caso presente havia essa possibilidade; e tanto é certo, que o sr. Anthero no seu segundo escripto, mais propenso á analyse, fez lisongeira e especial menção do drama Camões, que no primeiro tinha sido condemnado de envolta com a generalidade.
Considerou-o no que elle é, e não curou de indagar, como parece, se seria ou não seria original.
Ora nisto subiu de ponto a infelicidade do sr. Ortigão.{13}
O drama Camões—diz elle—é uma simples versão em que o traductor se apartou do original unicamente para lhe interpolar um auto, etc.
E serve-se d'este artificio para fazer cahir em falso os elogios, prodigalisados ao livro.
Mas, admittida tão arrojada proposição, a contradicção, a censurada contradicção, nem sequer fica sendo apparente, porque de todas as obras, que correm mundo com o nome do celebrado cantor da Primavera, foi exactamente essa, que lhe não pertence, a que alcançou os elogios.