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Onze horas. O sol, a prumo, punha na terra incandescencias de dia tropical.

O largo sem arvores fazia ophtalmias com a sua areia granitica a escaldar, reverberando sob esse sol que pesava e se cingia ao corpo como as tunicas de fogo de que nos faliam os livros santos descrevendo os tormentos infernaes.

Apesar d’isso, a animação e concorrencia á romaria da Senhora do Monte não afrouxára desde a vespera. Pelo contrario, até o sol parecia ter subido ás cabeças, a pôr mais vivacidade e mais ardor nos risos e nas cantigas.

Desde a madrugada que os carros se desconjunctavam n’uma pressa de despique, levantando pela estrada, falha de brita, nuvens de poeira.

Os cocheiros, congestionados, nem tendo tempo de limpar o suor que lhes escorria pelas faces, atavam ao pescoço os lenços d’assoar e chamavam os freguezes n’uma pressa d’aviar, como se fosse empreitada carregar com toda aquella gente lá para cima, a tempo de assistirem á missa da festa e ouvirem o sermão do conego Almeida, o melhor prégador da provincia. Cruzavam-se na estrada, paravam no meio do caminho para voltarem a cima com algum descorajoso que não tinha pernas para mais, ajustavam por todos os preços, gritavam para o povo que seguia a pé, obrigando-o a saltar para fóra do caminho, para o matto curto da serra, que parecia uma fornalha a arder.

O pequeno phaeton de João de Mello passava, elegantemente posto e guiado com firmeza, por entre toda aquella inferneira de carros, desde o envernizado char-à-bancs ás galopadas, trasbordando de gente até ao tejadilho, a velha victoria comprada em segunda mão, a caleche, o coupé, até ao classico carro toldado com vistosas colchas de ramagens, vindo das terras onde o macadam não chegava ainda e que só os bois podiam arrastar. Dentro, as senhoras levantavam os vestidos para os não enxovalhar ao pé das canastras da merenda e riam e gralhavam como quem na roda do anno tem poucas festas assim.

Bella, vestida de branco, com um largo chapéo egualmente branco, que lhe punha uma tenue sombra no rosto enrubecido, endireitava-se risonha e firme na almofada, segurando as redeas nas pequenas mãos muito habeis.

João, ao seu lado, concentrava toda a attenção na maneira de seguir por esse caminho eriçado de impedimentos, e pedia-lhe que tivesse cautella, que fosse devagar. Mas quê? ella sentia um prazer louco e uma certa vaidade em levar o cavallo a trote, furtando-o a todos os perigos, não deixando que nenhum outro carro lhe passasse á frente. As azas do seu fino narizito batiam nervosamente, os dentes apertados, a testa franzida n’uma unica préga de poderosa attenção e vontade energica, tudo demonstrava n’ella a excitação da partida. Para traz tinham ficado ha muito as carruagens em que o visconde e os hospedes seguiam, com mais segurança e menos alegria.