—«Esse é attaché na legação da Russia, onde nunca poz os pés, mas recebe uns mil reis diarios como official do ministerio dos estrangeiros, onde só vae nos princípios dos mezes para lhe darem o ordenado. O outro é o sr. D. Manuel Pereira de Vasconcellos, que se diz descendente do condestavel Nuno Alvares Pereira, não sei porque bullas, nem mesmo quero perguntar, para não ficar esmagada sob uma alluvião de nobiliarchias. Esse é bacharel formado e espera collocações varias; não escolhe profissão. O terceiro é o sr. Jorge Cabrella, filho d’um rico negociante de cordas, mas que tem o defeito maximo de apertar os cordões á bolsa quando se trata das extravagancias do filho. É um bom homem, sem educação, mas que tem trabalhado muito e sabe o que lhe custa a vida. A mulher é que faz do filho o inutil que vê, querendo-o fazer fidalgo. Em geral são as mães que perdem os filhos, em Portugal, porque conservam o estupido preconceito da bastarda fidalguia que para ahi ficou depois da extincção dos vinculos e dos conventos—de que o trabalho é um desprezo. Sabe o que estes tres homens procuram? Uma mulher que lhes traga em dote a certeza de poderem continuar as suas vidas de ociosos. E lá vão atraz da viuva riquissima, que se fosse pobre ninguem receberia em sua casa...

—«Conhece pessoalmente a baroneza?

—«Conheço e até sympathiso com alguns traços do seu caracter, que, apezar de tudo, é energico e tem certa grandeza. Mas quem me tem fallado d’ella é meu tio, que é das suas relações desde o tempo em que deslumbrou Lisboa com o esplendor das suas carruagens e a extravagancia do seu procedimento. Dizem que muitas vezes se vestiu de homem para andar á vontade. Muitas pessoas se lembram ainda de a ter visto percorrer a cavallo as alamedas de Cintra, de charuto na bocca, acompanhada de rapazes, novos como ella, quando o velho marido se torcia nos ultimos ataques que a livraram da sua incommoda pessoa. Conta-se que alguns assassinios se fizeram por sua causa... não sei! Do meu tempo não é mais do que aquillo, uma viuva rica que se diverte a arrastar uma cauda de pretendentes.

—«São-no aquelles?

—«Com certeza. Mas a baroneza faz-lhes partida, a todos. Não creio que venha a casar, ella que comprou a liberdade e a riqueza que hoje disfructa com os melhores annos d’uma mocidade torturada por um velho avarento e mau; mas, a casar, será com o administrador que lhe tem augmentado a fortuna. Entre todos o que mais merece, o pobre Bento da baroneza, como lhe chamam por lá.

—«Mas tudo isso não prova que aquelles tres rapazes vão alli com essa pretenção ignobil, porque nenhum decerto lhe tem amôr.

—«Mas teem-no ao dinheiro, e procuram-no onde o encontram.

—«Como se pode affirmar isso?

—«Perfeitamente. Na capital eram meus admiradores...

—«E não são aqui?