—«Sabes? É custoso acreditar n’essa amisade fraternal entre uma rapariga como tu e um rapaz como o João, educados n’um meio de intellectualidade que lhes fará difficil a escolha em Portugal, ambos livres e comprehendendo-se bem... Elle é muito bondoso; gostava que se entendessem definitivamente. Não te poderia vêr casada com qualquer homem, Bella. Seria uma profanação vêr-te nas garras d’esses abutres... de dotes. E tambem não gostava de vêr o João ligado á maior parte das mulheres que conheço.

—«Eu não me casarei nunca!

—«É possivel, mas não é provavel, filha. Eu sei que não admittes o casamento como estado social, como unico emprego para a arrumação da mulher, mas és muito affectiva e muito expansiva para que as amisades de teu tio e a minha, por maiores que sejam, te possam encher a existencia.

—«Maria Helena—respondeu Bella sombriamente—tu sabes o segredo tristissimo da minha vida, comprehendes que não posso casar, que não posso, ou não devo, gostar d’elle, de ninguem que seja honesto. Não, não posso amar a sério!...

—«Oh, filha!...

—«Sou brutal, não achas? Mas concorda em que sou rasoavel. Imaginas que teria a triste coragem de contar ao João, ou a outro qualquer homem que amasse—e se o amasse é porque o julgava honesto e bom—que meu pae fez dividas que não pagou, e jogou o que tinha e o que não tinha, fugindo sob a maldição de toda a sociedade, e vive sabe Deus em que miserias, ou morreu de fome e vergonha?! Querias que impudicamente abrisse a minha alma e lha mostrasse despedaçada como ma fez a vergonha de meu pae? Querias isto? Não! Ha muito que resolvi não casar, para me não prostituir acceitando qualquer d’esses sem honra nem brio, que pouco se lhes daria do nome de meu pae fazendo-me meu tio sua herdeira. Julgava-me forte, incapaz de gostar d’um homem a ponto de me parecer um martyrio incomportavel a memoria d’aquelle, que, apesar de tudo, foi um carinhoso pae!...

—«Isabella, imaginas que o João te accusaria das faltas de que não és, não podes sêr por fórma alguma, responsavel?...

—«É natural; por isso que é honesto, é que mais lhe deve repugnar a filha d’um...

—«Cala-te! Encommoda-me vêr-te assim. Não, o João não era capaz d’isso. Tenho mesmo a certeza que deve já ter havido alguma bôa alma que lhe dissesse não só a verdade, como a mentira... E vê lá se elle por isso te abandona um instante.

—«Talvez não saiba nada... Ninguem seria capaz d’essa infamia. Não é a mais negra das vilesas essa de contar a vida dos outros?...—um soluço fundo apertou-lhe na garganta a voz ansiada e terminou, quasi n’um tremulo de lagrimas:—Porque me não hão de deixar gosar esta dôce amisade espiritual que tanto me consola?... É tão bom, tão delicado, tão ao contrario dos outros, que o meu espirito, educado no despreso pelos homens, se depura e eleva na convivencia do d’elle.