Ás gargalhadas e ás vozes juntava-se o tinir dos copos e dos talheres n’uma algazarra e sem cerimonia, para a qual os criados davam o seu contingente, correndo, fallando, pedindo coisas uns aos outros, n’um reboliço que unicamente lhes desculpavam n’aquelle caso excepcional.
Terminara o jantar, que já só era seguido pelos mais destemidos campeões do garfo e faca. Já d’aqui e d’alli rompiam effusivos os brindes que as pragmaticas baniram dos grandes jantares de ceremonia.
Bella, que durante todo o tempo conversara com João e com o Telles, disse a este, vendo-o recusar o vinho loiro e perfumado que o chefe da mesa vinha offerecendo:
—«O quê?! O sr. Telles não bebe vinho?!
—«Oh! não, minha senhora! Não posso tomar nada que me excite os nervos doentiamente emotivos...
—«É incrivel! Um poeta não beber o nectar que reluz como topasio no fundo da copo, é quasi uma blasphemia. Não sei que poeta latino disse que parecia impossivel que se trocasse por miseraveis moedas de prata o oiro liquifeito e perfumado que se vertia em taças de crystal, nos banquetes da civilisada Roma!?...
—«Apesar de toda a sua decadencia ainda podiam com isso os descendentes de Romulus, mas nós, os abastardados filhos dos grandes navegadores, com os nervos crispantes como temos...
—«E porque tem assim os nervos? Uma raça só é decadente quando o quer ser pelo desleixo da sua educação e costumes... Mas não vamos entrar agora em sabias discussões educativas, que mal iriam a um fim de jantar em pleno campo. Diga-me antes, que mal lhe poderá fazer uma gotta de Kumel tomado com o café?
—«Mas se eu tambem não bebo café!