—«Até ahi?!...
—«Vivia com... em casa de meu pae. Não se póde dizer que vivesse com elle, porque só raramente o via. Ah! como isto me faz mal, fico nervosa, sabe?!
—«Faz-lhe mal, sim. Está n’uma tremura e tem as mãos geladas... mudemos de assumpto. Tudo quanto lhe diz respeito me interessa, mas não a quero vêr triste—disse-lhe com doçura.
—«Não,—respondeu sacudida, querendo fugir á commoção que a tomava e a fazia estremecer, deliciada, por encontrar uma tão grande ternura a diluir-se em palavras tão simples, mas tão repassadas de affecto e respeito, ditas n’aquella voz um pouco velada, de amoroso.—Quero contar-lhe o que foi a minha primeira infancia. Não lhe disséram ainda de quem sou filha?!...
—«Tentaram dizer-mo, recusei saber tudo aquillo que não viesse da sua bôcca.
—«Como esse procedimento é nobremente orgulhoso! Admiro o pelo caracter, mas, mais me obriga ainda a dizer-lhe o que me entristece e envergonha.—Como o João ia responder, atalhou—não me responda! Deixe-me dizer-lhe tudo de uma vez só, sem respirar, como quem se resolve a beber um remedio custoso. Toda a demora me faria perder a coragem. Meu pae chamava-se Pedro Avellar; nunca ouviu fallar de um banqueiro com este nome que foi accusado de falsificar lettras e quebra fraudulenta e que n’essa quebra arrastou muita gente que lhe tinha confiado as suas fortunas e tinha negocios com elle? Antes do escandalo final desappareceu e ninguem mais soube onde pára. Esse era o meu pae. Um desgraçado, uma victima mais do que um malfeitor. A sociedade tinha-lhe permittido todos os desregramentos porque era rico e para o exilio pouco ou nada terá levado d’aquillo que dizem ter subtrahido; as mulheres e o jogo tinham-no arruinado primeiro. A minha mãe é que era inglesa, sobrinha unica do tio Burns que a tinha educado e criado com os mesmos cuidados e mimos com que depois me tratou a mim. Mas a minha mãe era melhor do que eu, de uma doçura, uma passividade angelical. Nunca abriu os labios para um gemido de queixa. Os escandalos que meu pae deu, logo após o casamento, eram taes e tantos que o tio queria que ella requeresse separação. Como não quiz, sahiu elle de Portugal, onde então vivia tambem uma grande parte do anno. Nunca mais se viram. Quando eu tinha dois annos morreu minha mãe—de desgosto, de saudade!? Sei lá comprehender em que rios de lagrimas se affogou aquelle pobre coração! As horas que eu tenho passado a querer evocar a dolorosa physionomia da sua ultima hora, quando concentrasse em mim todas as suas forças vivas, n’um ultimo olhar de angustia!...—Um soluço nervoso sacudiu-lhe todo o corpo doridamente. João, com os olhos avermelhados de lagrimas que reprimia, quiz interrompê-la com alguma palavra consoladora, mas suspendeu o com um gesto e continuou:
—«Não diga nada, que a piedade da sua attenção vale bem mais do que todas as palavras.
Cahiu n’um fundo meditar; depois continuou n’uma voz quebrada, vinda do sonho da sua recordação infantil, como a recitar sem interesse phrases que lhe sahiam dos labios já feitas, a contar essa historia milhões e milhões de vezes pensada e nunca repetida, que se lhe tinha fixado na memoria como melodia sempre egual de um instrumento mechanico.
—«Imagine o que seria a vida d’uma criança passada entre criados que, a não ser a bonne, uma pobre velha inglesa que criára a mamã, eram d’esses que a fortuna traz e leva, como lama de enxurrada. Raras vezes via meu pae, mas quando o via eram tantas as festas e os presentes que me dava que eu tinha por elle uma verdadeira adoração. Não houve decerto criança que mais faustosamente fosse passeada pelas ruas de Lisboa, nem que mais rica fôsse em brinquedos e mimos. A criadagem, sabendo que tudo lhes era desculpado se me tratassem com carinho, não havia capricho que me não satisfizessem. Podia dizer-se que era feliz, se não houvesse não sei que saudades ou presentimentos infantis, que por vezes me punham em crises de lagrimas. Um dia, já então tinha oito annos, sahi a passear com a bonne, e vi n’uma montra o brinquedo mais interessante que até então tinha visto. Maravilha chegada de Paris e que o negociante não imaginava, por certo, vender tão depressa. Imagine uma linda bonequinha vestida como uma marquesa do seculo desoito, com alta cabelleira empoada e vestido no rigor da moda de Versailles, n’um palacio verdadeiramente principesco. Tinha tudo aquella feliz imagem de outras bonecas vivas, que egualmente envelhecem e morrem na ociosidade e no luxo em que a minha pobre boneca se fanou. Cadeirinha para passear, criados empoados, pequena sala de receber no mais rigoroso rocaille, salão, casa de jantar, alcova com seu leito baixo de grande cabeceira entalhada e doirada... emfim era uma verdadeira marquesa do grande seculo á qual não faltava a soubrette theatral, o abbade poeta, nem o fidalgo galante. Parece que estou a vêr todo este encanto da mais louca phantasia infantil,—terminou sorrindo á ingenua recordação, que dava um pouco de frescura e mimo ao sombrio evocar de uma infancia de orphã, criada no fausto, e tão pobre de alegrias simples e de affectos desinteressados.