—«E que culpa temos nós de que as palavras estejam tão banalisadas que não haja meio de exprimir com ellas uma coisa nova, delicada, e sentida como eu a sinto?!
—«Que voz a sua, João! não me falle assim! Atemorisa-me. Eu, que nunca tive medo de coisa alguma, estou agora tremendo como uma criança—dizia commovida, encostando-se á balaustrada de pedra e ficando toda na sombra.
—«E porque é que a sua voz treme como a minha, porque é que nos seus olhos as lagrimas querem rebentar, Bella?!...
—«É verdade, estou a chorar, mas porquê?!...—e tentava sorrir mas não conseguia dominar a tremura do seu pequenino queixo de uma pureza de linhas verdadeiramente infantil.
—«Porque me ama, Bella. Para que nega-lo? Porque me ama como eu a amo, com toda a minha alma, com todo o meu sangue, com a certeza de que o seu espirito e o meu se identificarão sem se absorverem, que seremos dois amigos para caminharmos juntos na jornada da vida...
Fallou por muito tempo, muito, tecendo sonhos, bordando phantasias, que ella ouvia enlevada, encostando a cabeça á mão que lhe deixava livre, numa passividade deliciada.
Calaram-se ambos, sem nada encontrarem que exprimisse a ternura immensa que transbordando da alma lhes enchia os olhos de lagrimas de ventura.
Elle, mais forte, conseguiu articular uma palavra que dizia o desejo ansiante do seu coração na sua mesma simplicidade—«Amo-a!...
Bella estremeceu toda, como se fosse emergindo n’um banho de caricias, e ciciou n’um halo de sonho:—«tambem eu o amo...