—«Oh Vilhegas—chamou do fundo da sala o conselheiro.
O Emygdio correu com interesse de subordinado humilde a perguntar o que lhe queria o patrão.
—«Venha cá, meu amigo. O sr. juiz pode ter algumas duvidas e quero que lhe diga com a mão na consciencia se o Cabral morreu assassinado pela pancada ou em resultado da doença que lhe deixaram sobrevir.
—«Não tenho duvida nenhuma em affirmar que foi da doença...
—«Deixem-me dizer-lhes—continuou o esperto politico—que o meu interesse pelo Manuel Duarte é apenas filho da revolta que toda a injustiça me causa, notem que nem é meu partidario... Mas o dr. Vilhegas, que em breve será meu filho, faça o mesmo que eu, feche os olhos a resentimentos e diga sempre o que a sua probidade mandar.
—«Sr. Conselheiro—começou o medico, dando um passo atraz e pondo a mão no peito n’um gesto de comediante sentimental—eu respeito v. ex.ᵃ mais do que ao meu próprio pae—e n’isto era sincero porque não fazia grande caso do barbeiro d’aldeia que lhe dera o ser...—mas acima dos affectos humanos está a justiça e a consciencia. Eu farei sempre o que uma e outra me ordenarem; se v. ex.ᵃ me pedisse o contrario teria muita e sincera magua, mas não cederia...
Isto é que já soava como bilha rachada, mas o conselheiro bateu-lhe no hombro e disse com enthusiasmo:
—«Bravo, meu rapaz! Assim é que eu aprecio o caracter d’um homem! É com toda a confiança que lhe porei nas mãos os meus negocios e sei que não usará da minha influencia senão para o bem d’este desgraçado paiz que caminha para o abysmo!... Dê cá um abraço, homem!—abraçaram-se com gravidade.
—«O sr. dr. Vilhegas—começou o juiz, arrastando a phrase como arrastava a perna gottosa—é um rapaz a entrar na vida com nobre caracter e agúda intelligencia. Abre-se aos seus passos um largo caminho que não hade querer manchar com uma injustiça inspirada pela má paixão da politica, como usam alguns seus collegas; fico pois com a minha consciencia tranquilla.