—«Que valor tenho para merecer um pedido de v. ex.ᵃˢ?!...
—«Tem o valor de ser poeta, acha que é pequeno? Nós queriamos ouvir recitar alguma das suas poesias.
—«Oh, sr.ᵃ baroneza, os meus pobres versos são pedaços d’alma angustiada que não podem interessar aos felizes da terra!...
—«As obras d’arte, quando sinceras, são comprehendidas por todos e commovem as almas menos sensiveis, não é verdade, sr.ᵃ baroneza?!...—disse o Vilhegas querendo que o amigo figurasse.
—«Decerto—respondeu ella.
—«Não se faça rogado, sr. Telles, j’aime beaucoup vos poésies!...—acrescentou Hortencia languidamente cerrando os olhos e apertando os beiços com denguice.
Um coro de insistentes pedidos rodeou o Telles, que se fazia grave, mettia os dedos nos cabellos, fechava os olhos, dizia não se lembrar nada do seu livro Verde-mar... Por fim, como que victimado, mas radiante de vaidade, levantou-se, pôz a mão sobre as costas da cadeira, levou a outra ao coração, fez ainda um gesto vago de quem se lhe tinha varrido tudo da memoria, o que impacientava os ouvintes, e começou com voz sibilando entre sorrisos de superioridade.
—«Dedicatoria: Á Doce e Pura que a minha alma espera para entrar na Turris eburnia da Perfeição.
Mas a palavra foi-lhe cortada violentamente pela explosiva apparição da conselheira n’um desmanchamento de modos de quem precisa desabafar arrelía séria.
Offegante, rubra de indignação, dirigiu se á baroneza como se quizesse toma-la para testemunha da justiça que lhe assistia.