—«Veja isto, veja isto!—e mostrava-lhe uma grande folha de papel escarlate por aparar, com uma enorme corôa de visconde ao centro encimando floreado brazão—aquelle pelintra que já desdenha assistir ás nossas partidas!... Não ha maior desaforo!

—«Mas o que é afinal?—perguntou a baroneza, que apreciava pouco scenas tragicas no seu epicurismo de pessoa que quer tirar da vida só o fructo saboroso e leve.

—«Leiam, vejam isto, desde que veio o inglês para lá está assoldado... Não se lembra o pobretana que veio para ahi sem roupa; até foi preciso emprestar-lhe camisas do Maximiano!... Ainda hontem a costureira me veio mostrar um par de meias d’elle que não tem por onde se lhe dê um ponto!... Agora, o figurão já não perde tempo a vir aqui...—voltando-se indistinctamente para quem tinha mais perto e calhou ser o Telles—leia o senhor o que manda por um lacaio. Só visto!...

O discurso ameaçava não deixar occasião para se ler a carta, porque a conselheira, vendo-se benevolamente escutada, não tinha mão nos improperios. Interrompeu-a a baroneza benevolamente:

—«Deixe que o sr. Telles leia a carta, aliás não percebemos nada.

—«Pois que leia, para verem quem é aquella bisca!... Só a chicote!...

O Telles pegou na carta traçada com larga calligraphia inglesa propria de sportman e de pessôas de poucos dizeres, e leu:

—«Minha ex.ᵐᵃ e querida senhora. Venho humildemente a seus pés depôr a minha homenagem e pedir desculpa pela falta que hoje darei na sua quinta-feira. Não poço.—O sr. Visconde escreveu posso com ç, não sei se quer dizer o mesmo, commentou o Telles com litteratica ironia.

—«Deixe lá os erros e diga para deante—apressou a baroneza.

—«Não póde deixar a partida de mr. Burns, a quem acompanhará n’uma caçada á serra ás tres da manhã—resumiu o Vilhegas, que acabou de ler por cima do hombro do amigo.