Por fim, até o Vilhegas, que, depois da morte da Pillar ainda fôra uma esperança de marido rasoavel, até esse era levado pela filha do Maximiniano Carneiro!...

Estes e outros factos contados e completados pela bisbilhotice da criadagem, davam alimento para as conversas em todas as infindaveis noites de inverno.

O rico enxoval da Candida, mandado fazer pelo tio nas melhores casas de Lisboa, com duzias de duzias de cada peça, rendas finas, sedas e bretanhas, as joias de preço com que o noivo a brindára, os mais presentes que tivera, tudo se commentava trazendo á baila a pobreza da rapariga, o que seria ella n’esse momento sem a generosidade dos tios, na mediania quasi pobreza em que vivia a mãe e os irmãos... Depois, a cerimonia do casamento, a que tinham assistido por convite do Braga, chegado ao delirio da paixão, todos querendo associar á sua alegria. O orgulho da Candida, a arrastar a cauda do seu branco vestido de noiva; o véo de verdadeiro tule de seda e as flores de larangeira a coroá-la n’uma alvinitencia de castidade; a cara do noivo e a sua figura ridicula, que ainda mais os fazia morrer de riso; a partida para Lisboa e a permanencia lá durante o inverno... nada ficava por dizer e commentar.

Quando este acontecimento já ia aborrecendo por demais refervido, como o chá de Tolentino, começaram alguns jornaes da capital a trazer umas noticiasinhas sorrateiras, que interessavam a todos. Tratava-se do Vilhegas, fallado em pequenas mas insistentes locaes, no corpo do jornal, que lhe apregoavam o talento formoso, a sua delicadesa e habilidade profissionaes, o casamento ajustado, para a primavera, com a gentil filha do illustre estadista...

Na botica velha o dr. Pinto ria sem respeito das maximianices, como costumava chamar ás espertesas do habil conselheiro, e affirmára ás gargalhadas, quando viera no carnet mondain de um jornal elegante que o enxoval da noiva fôra encommendado em Paris, que o vira a fazer em casa das meninas Sebastianas, as pobres costureiras e bordadeiras de roupa branca, que um escrivão de fazenda chamado Sebastião alli deixára na miseria.

Chamava o Neves e fazia-o fallar, elogiando-lhe o primo, fingindo-se de boa fé. O outro, coitado, ia dizendo, no seu grande fanatismo de parente pobre que julga engrandecer-se com a grandesa dos seus:

—«O rapaz vae a ministro, não tarda, o sr. doutor verá! Não, que uma cabeça como aquella... ha poucas!

O finorio, cofiando as barbas brancas, em que punha vaidade, ria sorrateiramente, achando que era realmente esperto, que se soubera arranjar, que casava bem...

—«Mas que bem!—dizia o outro tomando a deixa.—Casamento de trús! O sogro entende-se bem com elle; ha de leva-lo a tudo!...—Voltando á sua idéa fixa:—Não tarda que seja ministro, o sr. doutor verá!

—«Sim, sim, é natural. D’aquella massa é que elles se fazem por cá. O sogro, em demasia conhecido, dá homem por si, sim senhor, é bôa tactica!—Despedia gargalhadas jubilosas, batendo fortes palmadas nos joelhos.—É um patusco, aquelle Maximiano! E comem-na, vocês verão!...