A Candida affastou-se silenciosamente, emquanto o rapaz a ficava olhando embevecido. Era na verdade linda, mulher de fascinar e não d’encantar, talvez, de uma belleza cheia, fria, e esculptural, que se impunha.

Branca como um lirio e tão branca que o seu busto triumphal mais parecia talhado no marmore de que se fizeram as maravilhas da estatuaria grega. Cabeça alta e pequena levemente inclinada para traz, como que vergando ao peso dos fartos cabellos d’um castanho que á luz toma reflexos d’oiro; a bocca delgada, sempre aberta n’um sorriso frouxo de contemplação propria; e nos olhos negros, velados d’uma placidez funda d’abysmo, nada se poderia lêr do que lhe ia na alma. Muito alta e direita, nobremente lançadas todas as linhas do seu corpo—era uma verdadeira maravilha da carne.

Nada parecida com a Pillar, que fôra sempre d’uma graciosidade fina de intellectual; alta apenas para ser elegante; magra, sem o aspecto quebradiço dos doentes; d’uma pallidez moreno-perola: era em tudo o contraste da prima.

Criadas juntas, mas desemelhantes, tanto physica como moralmente, tinham-se feito mulheres e seguiam os seus gostos e inclinações, que os paes da Pillar não contrariavam na filha, que adoravam, e menos ainda na sobrinha orphã e pobre, que a bondade d’elles agasalhára e criára como egual aos seus.

Antonio de Mello, o pae da Pillar, fôra uma criança ainda para o Brazil, chamado por um tio que, como elle, partira havia muitos annos, deixando com lagrimas d’amarga saudade os amigos e companheiros de jogos e romarias, o seu rebanho, a terra amada, que era a sua patria.

Voltára annos depois—quando a morte do tio lhe déra liberdade para liquidar a fortuna—um pouco abatido pela nostalgia, mas ainda vigoroso de corpo e são d’alma, como fôra. Um bom coração de rapaz que adormecêra na trabalheira mercantil, acordando já quando os outros, os que passam a mocidade em folgança, se sentem sem energia para amar sã e nobremente.

Como viera bastante rico e tinha uma finura natural, de temperamento delicado, na maneira de apresentar-se, conseguiu captar as boas graças d’um velho fidalgo da terra, que tinha ao tempo uma filha para casar. Tinha a filha, o velho original, e uma pequena mas solida fortuna ajuizadamente administrada, e uma e outra, as paixões dos ultimos annos, elle queria entregar em mãos de homem capaz de asestimar.

—«Emquanto a fidalguia—dizia a quem fallava na humildade do nascimento do Antonio de Mello—era coisa de que nunca lográra comer...

Era bonita a joven Josephina, bonita e sadia de corpo e d’alma, como quem fôra criada nas serras e com a natureza aprendêra a bondade natural e humana dos fortes.

Mal que a viu alegre e moça, como arbustosinho agreste que em seu tempo proprio se reveste de perfumadas flores, sem complicações de tracto, nem agasalhos de estufa, amou a Antonio de Mello apaixonadamente. Doía-lhe no entanto recebê-la acompanhada d’um valioso dote, elle que a amava com a simplicidade primitiva d’uma alma e d’um corpo que se dão em troca de outro corpo e de outra alma por egual amante.