O homem que sahira do povo mais humilde, que arrastára uma vida trabalhosa luctando pela fortuna, encontrava ainda, no seu coração de trinta e oito annos, um crepitar de paixão e um desinteresse verdadeiramente juvenis.
Confessára-lho; e tão simples, tão honestamente, que a rapariga o ficára amando toda a vida.
Foram felizes como o podem ser dois espiritos que se ligam sem se absorver, que se estimam e comprehendem, desculpando-se mutuamente.
Com a felicidade inesperada do coração, Antonio de Mello tornára-se alegre, quasi criança; era a phantasia alada que doira a existencia e que um bom casal não pode dispensar, sob pena de cahir na realidade banal que mata o amôr.
Josephina, a boa e resignada alma, com a sua maneira serena e pacificante de encarar a vida, trazia áquella felicidade um não sei quê de intimamente religioso, que infundia respeito ainda aos mais familiares.
D’essa união tão completa nasceram dois filhos. Primeiro, o João, que fôra sempre uma bella e forte criança de boas côres e moderada phantasia, como a mãe. Alegre, prompto a defender os mais fracos, o seu espirito não se perdia nas nebulosidades dos sonhos, que atormentam as crianças precocemente, doentiamente emotivas.
Oito annos depois, quando o pequeno já bocejava sobre os livros das primeiras letras, nasceu a Pillar, de uma finura, de uma graça de estatueta. O irmãosito adorava-a e ria perdidamente, quando a via nos braços da mãe procurando o seio como um animalsinho voraz, e de farta deixá-lo depois e adormecer como um anjo. Mal entrava em casa, lá ia elle, pé ante pé, se a criança estava a dormir no bercinho, afogada em rendas e cambraias, contemplá-la com um affecto que mais parecia d’uma pequena mamã. E já quando maiorsinha, João servia-lhe de protector e amigo, de promotor de todos os festejos e brincadeiras que distrahissem a irmã. E assim, ella criou-se sob o affecto carinhoso dos que a rodeavam, como avesita fragil que um nada pode matar.
Talvez mesmo por isso, desde pequenina que os nervos lhe vibravam intensamente todas as alegrias e tristezas da alma. Intelligente e com uma grande vivacidade, a imaginação, como a do pae, viajava sempre pelos caprichosos trilhos do ideal. Não sendo positivamente bella, as suas feições eram tão finamente desenhadas, que o perfil esbatido em sombra sob a cabelleira revolta fazia-lhe uma verdadeira cabeça de modelo. Depois, quando fallava e ria, os olhos castanhos irradiavam um tal fulgor de intelligencia que, incondicionalmente, a diziam bonita.
Um dia, quando ella era ainda muito criança, o pae levára-a, e ao João, a uma quinta arredada onde deixava viver um irmão, que viera encontrar na miseria, apezar do muito que do Brazil lhe mandára. Um mandrião, um vicioso, que para alli ia morrendo aos encontrões da mulher e dos filhos que o não estimavam. Só o irmão não se esquecia do desgraçado, visitando-o amiúdadamente e dando-lhe tudo que elle necessitava.
Quando n’essa tarde chegaram á quinta encontraram a familia em gritaria confusa, porque o homem, n’um phrenesi de bebedo, cahira do patamar da escada de pedra e o sangue sahia-lhe ás golphadas pela bocca.