Tres dias depois teve a resposta á sua justa objurgatoria, na noticia de que a missa lhe era tirada, ficando suspenso emquanto não respondesse ás accusações que lhe eram feitas:—de despresar o culto divino, tratar tão sómente do bem corporal, entravar com seus discursos e opposição toda a iniciativa dos bons catholicos para uma salutar propaganda religiosa... A seu tempo seria chamado para se defender.

—«Defender-me eu?—dizia, mal segurando a carta nas pallidas e vacillantes mãos—defender-me de quê, se de nenhum mal me accusa a consciencia?!...

—«Então que lhe dizia eu, mano?! Se o seu defeito é ser franco!...

—«Pois fui e não estou arrependido; tiram-me a igreja, tiram-me as obrigações, mas tenho as devoções...

—«E obrigações tambem, querido amigo,—disse Isabella que tinha entrado, chamada pela criada do abbade que n’um pulo a fôra prevenir d’aquella grande afflicção.

Abraçou os velhos soluçantes, tentando em vão conter as lagrimas que a pungitiva scena lhe repuxava aos olhos.

Por fortuna não tardou que João accorresse ao seu chamamento e, para maior consolo dos velhos, acompanhado pelos paes: Josephina, não querendo abandonar as amigas n’essa hora de provação; Antonio de Mello, muito grave, pesando bem as palavras da carta que o abbade lhe entregára.

—«Mas o que é isto—dizia João, animadoramente—ha aqui quem chore e esmoreça por ser perseguido em nome da hypocrisia e da ambição?!... Ora vamos, tia Joanna—desde criança que assim chamava a velhinha, que bem como sobrinho o amára sempre—isso nem me parece seu! O nosso abbade já o não é da parochia, melhor nos póde servir e ao povo que tanto ama. Tiram-lhe a igreja, tem a escola; tiram-lhe a missa, tem a communhão espiritual dos infelizes. Não acompanhará os mortos que vão para a vala, ajudará a bem morrer os que não tem que deixar em testamento...

—«Vamos, sr. padre Antonio,—ajudou Isabella—mais do que nunca o seu concurso nos é preciso, mais do que nunca é urgente que se dedique á nossa obra de redempção.