Não me queixo de ti, minha joia, podias porventura imaginar que seria elle o primeiro a despedaçar escandalosamente as cadeias, que só foram pesadas para mim?
Que estupido destino o meu! Aos desesete annos, cheia de enthusiasmos e de infantis curiosidades, deixo-me convencer que era amôr o que sentia por meu primo. Amôr egual ao que elle me confessava em phrases, que eu então imaginava só ditas para mim, santas como o seu affecto.
Um bello casamento o nosso—fortunas eguaes, familias eguaes, paixão, alegrias, festas, nada faltou!
Mas que profunda differença entre esse rapaz vaidoso, futil, sempre morto por se divertir, com um fundo de egoismo e de hypocrisia atroz; e a rapariga cheia de sonhos, amante e infantilmente crédula que eu então era! E tudo lhe perdoava, tudo n’elle me parecia toleravel, porque o amava e o julguei sincero. Enganou-me como se pode enganar uma criança de seis annos, até que o acaso se encarregou de me abrir os olhos á verdade brutalissima da vida. Em tantos annos de casada não houve um só dia em que eu desconfiasse da lealdade do seu caracter, e não houve um só dia em que elle me não enganasse vergonhosamente. Depois de saber isto estava mulher, uma passiva ter-se-hia resignado, algumas fariam o mesmo que elle, outras ainda encontrariam nas vaidades mundanas a phylosophia cinica a que usam chamar savoir vivre. Eu, era uma selvagem, não me resignei, e fugi como um animal ferido para a solidão magnifica da natureza, resolvida a tudo acabar pela separação. Encontrei a tua amizade santa e ella me obrigou a comprehender a vida e a resignar-me na apparencia. Os teus poucos annos de rapariga educada no mundo e para viver no mundo souberam aconselhar a mulher que apenas tinha vivido pela alma. Disseste-me que fingisse—fingi! Que ninguem devia vêr as minhas lagrimas—e ninguem as viu senão tu. Mas que friesa tumular foi a nossa vida desde então! O capricho que lhe inspirei esvaira-se, como fumo, n’aquella alma inconstante. O sincero affecto que eu lhe dedicara tinha morrido sem que eu soubesse como. O que então mais soffria em mim era o que já não tenho hoje—o orgulho, a vaidade de mulher nova e bonita.
Que vida a minha! Se eu tivesse um filho—a suprema aspiração da minha alma—então teria ainda esperança de ser feliz, assim!... Mas se o tivesse, que dôr eu sentiria vendo-o despresar seu pae, porque o despresaria decerto, e nada se pareceria com elle. Desgraçado, não lhe tenho nenhum odio. Odio só tenho á sociedade que me liga eternamente a um homem que me despreza e a quem egualmente despreso. Só isso me faz ainda vibrar os nervos n’uma revolta! Has-de perguntar para que queria eu a liberdade dada pela lei, visto que já nada espero do mundo?...
Não sei. Era livre, ao menos, não tinha o meu nome ligado ao d’elle—já era alguma coisa!
Olha, Isabella, quando criança sonhei uma vez que ia por uma estrada cheia de sol e poeira. Caminhava, caminhava n’um desconsolo de cansaço e solidão. Muita gente passava por mim e corria para a frente empurrando-me e deixando-me cada vez mais desconsolada. Os campos em volta eram d’uma aridez desolante—nem um pedaço de paisagem verde, nem uma sombra onde podesse descançar os olhos mortificados. No fim de tanto andar, que os pés em sangue já se recusavam a continuar a marcha, encontrei a sombra rachitica d’uma arvore, cahi extenuada e alli fiquei sem pensar em mais nada. Das pessôas que tinha visto, muitas voltavam abatidas e tristes, outras corriam ainda para a frente, lindas de esperança e alegria.
Vendo-me tão abandonada, os conhecidos chamavam-me, os outros olhavam-me lamentosos, e eu, indifferente a uns e a outros, não me levantava, cançada para sempre d’esse caminho árido. Levantar-me, para quê?
A traz sabia eu que nada havia bom, para a frente não tinha coragem de procurar saber.
A minha vida é isto, Bella: fecho os olhos e deixo-me adormecer na desgraça—que me falta a coragem para procurar existencia melhor.