Não sei se comprehenderás esta carta, que não tenho coragem de reler. Vae n’ella toda a minha alma ansiante acolher-se ao teu coração honesto. Dize-me que vivo, que eu já não sei o que isso é!

Adeus. Lembra-te sempre da

tua:

Maria Helena.

P. S.—Esta carta escripta hontem vae tal qual a senti e a penna a traçou; não a rasgarei para te dar mais uma prova de quanto confio no teu affecto. A mamã está mais socegada e com a sua saude volta-me a coragem e o sangue frio para ver claramente a situação que meu marido me deixou.

Vou aproveitar definitivamente a liberdade que me dá. É quasi um allivio, depois de tantos annos de servidão. O dr. Ramalho acaba de sahir d’aqui e affiançou-me que em tres dias a mamã poderá acompanhar-me. Sahiremos então desta casa que é d’elles e que devo deixar sem a mais leve saudade... Sem saudades?... Não sei que têm estas coisas inanimadas que nos rodeiam para assim nos custar a separação, mesmo quando apenas foram testemunhas de maguas... Do que é seu fará o que entender; o que nós temos chega para a nossa sustentação mais do que modesta. Sinto-me tão serena que já me parece que sou feliz. O que me aconselhas que faça? Espero a tua resposta para sahir d’aqui.

Abraça o João e recebe muitos beijos da

tua do coração:

Maria