No meio da satisfação geral sómente D. Genoveva soffria da doença incuravel que trazia a filha em sobresalto e da ferida que o seu orgulho sentira com o escandalo dado pelo visconde, aggravado a seus olhos pela noticia que lera nos jornaes de que um grande leilão liquidaria em breve o palacio de Lisboa recheado de magnificencia e preciosidades, um verdadeiro museu de arte e mobiliario, como se não reuniria tão cedo outro na capital.
Sentia-se ferida na sua vaidade vendo o nome do genro, que era o seu proprio como tia, lançado assim á curiosidade publica, baralhado na confusão da sociedade como o de qualquer bricabraquista interesseiro ou pretencioso. Achava que a viscondessa se devia oppôr a tal venda, e era baldado o esforço do velho abbade para lhe fazer comprehender as vantagens que da presente situação advinham á filha, senhora emfim de viver ao seu gosto na serenidade de uma existencia sem obrigações, que intimamente despresava.
Muito agarrada aos velhos codigos nobiliarchicos, á boa senhora era custosa a conformação com essa maneira simples de ver as coisas, que se lhe antolhava por demais despresadora das leis da sociedade a que pertenciam.
A seu ver não devia Maria Helena ter sahido de sua casa, do seu mundo, não deveria ter despresado os parentes e amigos que em Lisboa lhe fariam uma côrte, de lamentos, anathematisando o procedimento do Visconde.
Custava-lhe realmente a comprehender que se preferisse a solidão d’aquelle grande palacio ao convivio das relações mundanas. Não attingia o motivo que levara a filha a, mesmo alli, cortar relações com toda a gente que mais ou menos a distrahiriam. Dir-se-hia que era ella a criminosa, ella a que tinha motivos para se envergonhar e fugir.
Depois essa maneira de fazer bem educando os filhos do povo para serem tanto ou mais do que os nobres, não lhe quadrava.
—Decididamente já não comprehendia nada do mundo, nem a gente nova se parecia com a velha—concluia pegando no crochet de lã grossa com que se entretinha a fabricar saias e casacos para as criancitas pobres, na convicção intima de que era assim que se praticava o bem; distribuir esmolas a uns e a outros conforme o capricho e a sympathia de cada qual, sem livros e sem escolas... Escolas para que?! Só se era para os criados se julgarem mais senhores do que os proprios patrões... A seus olhos, o mundo tinha-se voltado do avesso; se até o velho abbade passava sem dizer missa e respondêra com o despreso ás accusações que da camara ecclesiastica lhe tinham mandado!...
Valia-lhe o dr. Pinto, a irmã mais nova do abbade e as Cunhas para lhe fazerem a partidinha do whist e lhe irem contando os casos da villa; era o que a distrahia um pouco depois das rezas obrigatorias e da leitura, feita pela dama de companhia, de toda a grinalda romantica do principio do seculo passado.
Com a aproximação do inverno seguinte a sua saude resentira-se-lhe e muitos dias havia já em que a filha a não podia deixar. Habituada áquelle affecto sempre prompto e tocante, acostumara-se tambem a vê-la sacrificada sem um murmurio e acceitava como obrigatorio o que só o amor lhe offerecia.