N’um d’esses dias, em que, por Maria Helena não sahir, Bella a fôra visitar, viu com surpreza, á sahida, que uma carroagem parava ao portão e um homem se apeava, fechando-a logo cuidadosamente. Ia passar sem procurar conhecer o visitante, mas sabendo que a amiga não tinha segredos para ella e presentindo desgosto ou incommodo que a sua interferencia podia talvez evitar, resolveu dirigir-se ao desconhecido.

Sem saber porquê, pensou no Visconde e lembrou-se que seria porventura estrangeiro rico seduzido pelas maravilhas de arte expostas no catalogo do leilão, que preferisse comprar a propriedade em globo e para isso necessitasse a assignatura da viscondessa.

Tudo isto lhe atravessou o cerebro apenas no tempo preciso para se lhe dirigir perguntando o que desejava.

Muita habituada a conhecer a sociedade a que pertence qualquer individuo pelo exame rapido de toda a sua pessoa, Bella constatou no olhar em que o envolveu por completo que nada faltava ao trajo, consagrado pelo figurino britannico, de um homem rico em viagem.

Não sabendo muito bem em que lingua devia fallar a um homem que o cosmopolitismo parecia ter marcado fórtemente tirando-lhe a distincção de qualquer nacionalidade, perguntou em francez o que desejava.

Elle parou, cumprimentando. Era um homem de que se não poderia bem precisar a idade porque, se o busto se endireitava n’uma arrogancia de juventude, o cabello e o bigode já grisalhos davam-lhe uma apparencia de velhice precoce.

A pelle de um amarello verdoso denunciava longos annos de vida nos tropicos, as pregas mal difarçadas junto aos olhos, de uma intelligente viveza, accusavam uma longinqua mocidade mal aproveitada em vigilias e prazeres ou esgotadoramente trabalhosa. A bocca, onde fortes dentes ainda brilhavam, tirava ao rosto toda a expressão de bondade, franzida n’um rictus de ironia.

—«V. Exc.ᵃ poder-me-ha dizer se a sr.ᵃ Viscondessa está?—respondeu no mais correcto portuguez, acompanhando a phrase do seu riso escarninho, como quem esperava gosar do espanto da interlocutora.

Mas Bella pensou:—bom, já sei que é brazileiro que deixou a patria e com ella o soutaque da pronuncia e que vive cá pela Europa muito ao seu gosto. Conheço o typo geral, tão poucos existem, por cá! Principalmente em Paris, que é para todo o legitimo brazileiro o resumo das perfeições humanas, a terra promettida onde vão terminar todos os seus sonhos de ambição.—E respondeu sem se desconcertar:

—«A sr.ᵃ Viscondessa tem a mãe tão perigosamente enferma, que me parece inutil qualquer pedido de attenção. Mas se não é caso urgente, V. Ex.ᵃ esperará...