Emygdio, desanimado scientificamente, queria conservar a todo o custo uma illudidora esperança; d’essa esperança sem base que está no intimo de todos os seres humanos, inferiores ou superiores, eternas crianças que somos, só fortes á custa de raciocinio e vontade consciente e educada.

Mas n’essa manhã desconsoladora de inverno, vira-a tão desmudada e cadaverica, que desanimára de todo. A correr se dirigira ao telegrapho para chamar o dr. Ramalho e para alli voltára logo e alli se conservava na espectativa do grande desastre.

Os paes encaravam-se espavoridos, sem manifestação de sentimento, porque a dôr quando assim forte é como anesthesico para o espirito que se concentra no ultimo reducto da esperança, no impossivel, no milagre...

A noite cahia com a lentidão pastosa das tardes de chuva, que se afogam em lama silenciosamente. Os criados, em bicos de pés, accendiam as luzes indispensaveis para o serviço, trocando phrases a meia voz em que a palavra morte se repetia já como um dobre de sinos, e soluços abafados se suffocavam. Por toda a casa pesava o mesmo silencio funebre que se presentia cheio de gritos prestes a explodir...

O Emygdio, junto da janella, olhava inconsciente a sombra rapida que crescia no jardim, as arvores encharcadas pingando no chão já empoçado, as hastes despidas de folhagem enlaçando n’uma alliança macabra aquellas que o inverno não pode desnudar nas suas furias loucas. Como era differente o aspecto do jardim, n’essa amorosa noite de outomno, a ultima em que estivera com a Candida, aquella em que a Pillar adoecêra!...

Do quarto da doente vinha um murmurio de vozes, que se differençavam. Todas as vezes que a da Pillar, um pouco rouca, já estortorosa, se ouvia, elle enterrava as unhas nas palmas das mãos, n’um desespero de vencido.

Ella soluçava n’esse momento, deitando os braços ao pescoço da mãe como se quizesse agarrar-se ainda á vida que lhe fugia:

—«Soffro, soffro muito!... Vão chamar o papá! Quero ver o João... Tenho medo, mãe, tenho medo!...

—«Medo de quê, filhinha? Estou eu aqui, não vês?...—respondia-lhe estrangulando os soluços a triste mãe.

—«Não sei!... Tenho medo de tudo!... Queria morrer sem ver chegar a morte!...