A Candida entrou sob a gelida impressão de quem entra como réo avergado á culpa, n’um tribunal em que a consciencia é juiz inilludivel e implacavel.

Presentia que o momento solemne das explicações chegára inappelavelmente e não podia avaliar o resultado final d’aquella entrevista que a podia atirar para a miseria mais desoladora, a dos incapazes para o trabalho.

A doente entreabriu os olhos, acenou á mãe e á Engracia para sahirem, e ficou só com a prima. Fixou-a em silencio, com os grandes olhos pasmados dos moribundos, vendo-a estorcer-se n’um supplicio sem ousar avançar nem recuar, querendo fugir á suggestão d’aquelle olhar que a condemnava mais do que a sentença d’um juiz.

—«Vem...—murmurou por fim a inferma.

Deu dois passos cambaleando e foi cahir de joelhos junto do leito onde a Pillar arquejava, levantando-se n’um esforço supremo de vontade, fincando o cotovello direito nas almofadas.

Vendo-a tão proxima de si, teve um instinctivo movimento de repulsa, mas, vencendo-se logo, poude agarrar-lhe o pulso com tudo quanto lhe restava de vida:

—«Mataste-me, lembra-te d’isto... Sei tudo!... Vi tudo!

N’um arranco tragico, gaguejava palavras entrecortadas, que nada diziam, nada do que ella queria talvez dizer. N’um esforço prodigioso de energia, empurrou a prima, sentou-se na cama, e estendeu os braços no vacuo; logo a seguir retezou-se toda, cahindo sobre a ruma d’almofadas que lhe tinham feito supportavel a cama.

O aspecto da pobresita era terrificante, olhos escancarados como se procurassem a luz que lhes fugia, a camisa desabotoada descobrindo as claviculas descarnadas, a bocca augmentada pela emaciação contrahida n’um rictus doloroso, e a pelle a que a luz da lamparina dava um tom azulado enrugada como velho pergaminho. Os braços descahiram-lhe ao longo do corpo e as pequenas mãos transparentes arrepanhavam a roupa...