O Emygdio foi cahir de joelhos junto da morta, e tentava fechar esses olhos que o endoideciam.

Mas as palpebras oppunham aos seus dedos trémulos uma resistencia fria de coisa morta. Carregava com força, brutalmente, com risco de estoirar as pupilas, mas quando levantava os dedos elles lá estavam envidraçados, n’um espanto tragico e vasio.

Era uma preoccupação independente da sua vontade, uma infantilidade quasi, parecia-lhe que se ficasse assim de olhos abertos toda a gente n’elles poderia ler o seu crime. Não ouvira tantas vezes contar, quando criança, que assim se vingavam as victimas dos seus algozes?!... E que extraordinaria vingança aquella! Conservar eternamente nas pupilas sem vida a imagem de quem lh’a tirára!...

Não era o medico, o homem de sciencia que alli estava, hesitante, enraivecido, todo em lagrimas; era um criminoso vulgar cheio de sustos e preconceitos.


V

O sol fôra inclemente em todo esse dia de julho.

Anoitecia, e, apezar d’isso, nem a mais leve viração se levantára consoladora a arrepiar, n’um trémulo de caricia, a folhagem das arvores, que tinham o banal aspecto de plantas de folha pintada a que o tempo e a poeira debotára a côr.

Na paysagem de serras e fraguedos, que o homem conseguiu cultivar e esplanar em sucalcos successivos, os restolhos punham manchas de oiro no verde sombrio de agreste vegetação; e o céo, d’um azul que o proprio calôr velára, tornára-se vermelho sanguineo, agora, que o sol desfallecia no poente.