Os jornaleiros recolhiam silenciosos aos casebres, sem riso ou cantiga que alliviasse penas, mortificados pela trabalheira rude das ceifas e malhas sob a rudeza d’um sol impiedoso. Nem as raparigas na fonte gargalhavam, como de costume, emquanto a agua, correndo muito lenta e diminuida, lhes enchia os cantaros de barro.

Só muito ao longe, pelas quebradas da serra, resoavam os chocalhos dos rebanhos indo para o pasto e a flauta do pastor a guiá-los até á madrugada,—que depois a calma aperta e os pobres animaes, de agoniados, nem podem comer. Mais longe ainda, o chiar rangente dos carros de bois, como um longo gemido angustioso... Dir-se-hia que todas as coisas soffriam do calor asphyxiante e cahiam n’uma invencivel preguiça de viver.

É pequeno o verão nas montanhas—alguns dias de julho e agosto, quando muito os primeiros de setembro—mas esses são pezados, infernalmente longos e ardentes, sem nenhuma compensação e consolo de leve aragem pelas tardinhas. Em casa abafa-se, não ha sombra que resista á subida do thermometro quando o mercurio chega á linha do Senegal, n’um escarneo a paizes temperados. Na rua, noite alta mesmo, não se sente nenhum allivio; da terra sóbe uma baforada quente de fornalha, que afflige.

Abafa-se... mas é moda ir-se em julho para lá, não obstante ser infinitamente mais agradavel um canto de praia—onde o mar põe levezas de ar salino e um frescôr de permanente banho de espumas, as gaivotas veem á babugem da agua gritar as sonoras alegrias das coisas simples e humanas, e os olhos navegam longe, com a amplidão suggestiva das azas e das velas.

E passam na cidade,—n’aquelle afadigamento de distracções e afazeres, que chegam a ser monotonos á força de repetidos—os que obedecem á moda por preguiça intellectual de pensar e querer, os dias criadores de primavera—quando os caminhos lá das serras se alcatifam de musgos velludosos, as arvores se cobrem de flôres e verduras tenras, e as nascentes correm mais abundantes e limpidas da rocha viva; quando as andorinhas se acasalam e toda a natureza canta o grande hymno magnifico da vida é que a montanha se torna acolhedora e falla ás almas, como uma bôa e amorosa mãe.

Mas... não está decretado pelo habito dos que dão a nota de elegancia em todos os actos da vida ainda os mais intimos e graves, e por isso a villa estava radiante com os seus hospedes de verão.

João de Mello atravessou melancholico e vagaroso o largo da Fonte e dirigiu-se á botica velha, onde o sr. Domingos José da Silva se debatia contra o calor e distillava suor em mangas de camisa, como se tivesse sobre as costas pezada armadura medieva. Soprava em bochechas de affrontado, limpava a cara ao tabaqueiro de ramagens, escancarava os braços como a arejálos, e cahia esfalfado n’uma cadeira para se levantar incontinente como se tivesse por assento um brazeiro inquisitorial em vez de innocente palhinha.

—«Oh meu querido sr. João de Mello—berrou descompassado, mal viu assomar á porta a figura melancholica do rapaz—quanto folgo, quanto folgo de o ver! Cuidámos que não queria nada cô a gente.

Abraçou-o expansivo e correu dentro a chamar o filho para accender as luzes. Estava radiante com a visita do feliz herdeiro de quinhentos contos, a melhor casa da comarca em dinheirinho de contado e bôas terras livres, sem fallar nos fóros que se recebiam sem conto pelo S. Miguel de cada anno. Era bôa, talvez mais extensa em propriedades, a casa do Visconde, mas a politica como as demandas e o jogo onde entram fazem largo rombo... Estas e outras considerações expunha elle á mana Joaquina, sentados á fresca, sob a parreira do quintal.

—«Muito bôas noites, sr. Domingos; eu venho...—tentou dizer o João.