—«Deve ter sahido a cavallo, como costuma, antes de jantar. Talvez esteja na bibliotheca, ou tenha visitas... Não lho posso dizer ao certo. Só nos reunimos ao jantar, e para isso é ainda cedo—concluiu, olhando para o cinto onde, preso a uma agrafe d’oiro esmaltado, trazia um pequenino relogio de crystal.

—«Em Lisboa sei que é esse o costume, pelos muitos affazeres do Visconde, mas julguei que aqui lhe pertencesse mais, n’esta liberdade de férias no campo.

—«Não, para nós é já um habito. Depois, aqui tem a politica que o absorve e distrahe: ouvir um influente, attender a outro, escrever cartas e fazer combinações... Toda essa embrulhada, a que sou perfeitamente estranha.

—«Não se interessa então nada pela politica?—respondendo ao signal de negativa que ella fez com a cabeça, continuou—Imaginei que sim. Tenho-a tido sempre como um poderoso elemento na influencia partidaria do Visconde.

—«Porquê?

—«Porque a vejo sempre amavel para os influentes, conhecendo-lhes os fracos e os interesses...

—«Sómente para fazer a vontade ao Duarte, que é a unica coisa que me pede com interesse. Mas é contra minha vontade que elle se mette n’esta vergonha da politica. Os de , os pequenos, como os de , os grandes, é tudo afinal a mesma coisa. Egoistas, ambiciosos, interesseiros, não ha um unico que queira vêr a miseria em que a patria agonisa e se sacrifique para a salvar. E se algum apparecesse, os outros affastá-lo-iam como um perigo para as suas bolsas que o thezoiro enche... Debaixo a cima, a lucta furiosa d’ambições para chegar ao poder; depois... ninguem se salva... O que me desgosta é vêr o Duarte viver com elles, ter os mesmos ideaes estreitos, acceitar os mesmos compromissos para identicos fins. Elle, que é pessoalmente honesto, politicamente iguala-se ao Maximiano Carneiro—porque é igualar-se tê-lo como adversario.

—«Não diga tal, Viscondessa! Pois não a consola que seu marido seja apontado entre os partidos da rotação como um dos raros honestos?

—«Sim, nada do que nós temos nos veiu com a politica, mas isso, meu amigo, é a honradez vulgar do creado de servir que não tira o dinheiro ao patrão mas vê sem protestos os outros encherem as algibeiras.

—«Não crê que em volta do nome honrado do visconde se forme um partido novo a que se juntem as almas ainda impollutas dos moços, cheios de coragem para luctar, resignação para a miseria, e esperança no futuro?