—«Não creio n’esse dôce sonho côr de rosa. Em primeiro logar porque os novos já não são como ha vinte annos os depositarios dos enthusiasmos e das grandes ideias altruistas. Tem-se educado a mocidade para politicos e empregados publicos. Os independentes são uma pequena minoria, que os proprios companheiros alcunham de doidos... Os homens práticos n’este paiz são os que aos vinte annos só teem confiança... nos empenhos.

—«Como está descrente! O Visconde ainda fará alguma coisa, verá...

—«Não creio, o Duarte transige com os meios, e para salvar isto seria preciso não haver transigencias de qualidade alguma. Seria preciso cortar fundo e a direito, sem olhar absolutamente a conveniencias pessoaes.

—«Quer então um novo Pombal?!...—perguntou o medico, rindo.

—«Sem as barbaridades que deslustraram a sua bella obra de resurgimento patrio. Viesse elle!...

—«É então por esse ideal... sebastianico, que lhe não interessa a politica contemporanea?!

—«Decerto! A não ser que o doutor me explique o que o paiz ganha e o que póde advir de grande e compensador para a collectividade portugueza, com a entrada do sr. Domingos da botica para a vereação da camara municipal, ou com a realisação do empenho do Braga, em fazer expropriar a casa do Bernabé, porque affronta o seu chalet mirabolante de burguez endinheirado e estupido. Sim, o meu bom amigo, que é tambem politico, poderá explicar-me essas vantagens...

—«Eu sou um politico... d’agua morna. Auxilio o Visconde por amizade, e acceitei, como sabe, ser deputado por um circulo qualquer para que elle tenha mais um voto na camara... Nunca me encommodei com os meus constituintes, que teem tido o bom senso de não pensarem tambem no seu representante.

—«Quer isso dizer que o doutor, que em toda a sua vida particular não tem uma mancha a enodoar lhe o nome, acha que é natural ser representante d’um povo porque o governo lhe disse que o fosse?! Acceita isso, e acha até muito natural que se faça, o que n’um paiz civicamente bem educado se não faria; e porquê? Porque é politica. Triste palavra que tanta coisa má faz desculpar! Os senhores não creem nos homens que seguem; não teem partido porque não teem convicções!...

—«Mas isso é quasi uma descompostura...—disse de bom humor o medico.