O criado que annunciára o doutor veio dizer, n’uma reverencia,—que a sr.ᵃ D. Candida e o tio estavam com o senhor Visconde na casa de jantar, esperando-os.
—«Porque não mandaste entrar para aqui?
—«Como o jantar vae ser servido, o sr. Visconde deu ordem para vir prevenir v. ex.ᵃ
—«Vamos!—disse ella, voltando-se para os tres, que promptamente se levantaram.
Na espaçosa sala de jantar, aberta sobre um terraço sobranceiro ao jardim, as luzes estavam acezas e dispostas de maneira a illuminar a casa sem lhe tirar de todo o encanto um pouco sombrio das antigas habitações, de tecto apainelado e pintado a fresco e de paredes revestidas de azulejos até meia altura.
Sobre o linho alvissimo da toalha, os crystaes lavrados e as porcelanas marcadas, harmonisavam-se com os fructos e as flores espalhadas um pouco por toda a parte, em pequeninas jarras, em cestos, em ramos, ao lado de cada conviva, n’uma prodigalidade que a riqueza do jardim authorisava. Nos aparadores de rica talha Renascença, a baixella de prata, que um artista cinzelara e de Italia fôra trazida para aquelle palacio por um avô dos viscondes, dava um forte destaque de luz junto ao severo mobiliario.
Na parede do fundo, entre as duas portas da bibliotheca, que pesados reposteiros com o brazão d’armas vedavam, um quadro a oleo tomava toda a altura. Era simples a scena e palpitante de vida: um cavalleiro, imberbe ainda, segurava pelo freio um cavallo que se empinava soberbo, espumando, o pello luzidio de suor.
O ar energico e sereno do retratado era de tal maneira humano, que ninguem duvidaria que o pintor tirara do original essa figura, decidida a tudo, antes do que a abdicar. O calção branco e a casaca encarnada do cavalleiro, moço fidalgo e rico homem, destacava-se sangrentamente no fundo plumbeo da tela. Em pé, diante do quadro, o Visconde e a Candida conversavam, emquanto Antonio de Mello, filado pelo Braga, agora seu companheiro insacudivel por causa da sobrinha, e do visconde por causa da casa do Bernabé, estava no vão d’uma janella ouvindo pela millesima vez a pretensão do homensinho.