Que essa mulher fique solteira, porque não encontrou o companheiro ao qual lhe seria grato ligar o seu destino, ou que, encontrando-o, seja sentimentalmente feliz, que temos nós com isso?

Por acaso nos preocupa a vida conjugal do politico A. ou do artista B.?

O maior erro do homem é, a meu ver, estar convencido de que a mulher nasce e existe só para o seu prazer e encanto. Partindo deste principio, é claro que não nos encontraremos nunca, visto eu pensar de modo tão contrario.

A mulher, como o homem, nasce para si mesma. Tanto um como o outro fazem parte da sociedade, de que são factores igualmente imprescendiveis, que se não comprehenderia nem sequer existiria sem a união dos dois sexos, mas na qual individuos isolados podem coexistir igualmente, decentes, honestos e respeitaveis—quando muito pagando maior contribuição, como querem alguns economistas francêses...

Quando digo que não temos nada com a vida sentimental de cada um, não quero dizer que a mulher case por ambição monetaria ou intelectual, se é exatamente para a livrar dessa baixesa que a desejamos independente pelo seu trabalho, quando o não seja pela fortuna, e mais independente ainda pela razão que a torne um ente de consciencia justa.

Diz V. Ex.a que é o amôr que salva a mulher?!...

Efectivamente, por muito amar se salvou uma—a biblica Magdalena.

Mas não é desse amôr que se trata, dirá, é do amôr puro e honesto da mulher honesta por temperamento, educada e instruida, que escolhe com toda a liberdade do seu coração e do seu espirito o homem que lhe agrada.

Ora não é esta mulher assim elevada, assim honesta, assim livre na sua escolha, a que, pelo mais futil motivo, irá mudar de afecto, enredar-se em aventuras galantes, para as quais geralmente não tem vocação, e que podem preencher a existencia duma frívola e ignorante criaturinha cheia de vaidades e que no triumfo dessas vaidades tem os seus unicos gosos intelectuaes.