E se pensarmos que esta primeira, mas definitiva conquista do espirito masculino, representa quasi o trabalho de meio seculo, temos vontade de dizer como o mais brilhante dos feministas francêses, Camille Mauclair:—que as mulheres apresentando as suas ideias e luctando pela educação que as superiorisa, lembram a paciencia das aluviões que fazem recuar o mar e mudam o aspecto de um paiz.
Se á geração que nos precedeu alguem falasse em feminismo, que apenas lá fóra começava a fazer-se perceber pela guarda avançada de exageradas e desiquilibradas, como adeante das procissões solemnes vem sempre o rapasío gralhando e correndo a foguetes, não haveria homem inteligente que não soltasse uma gargalhada escarninha, nem, com certeza, rapaz das escolas, que madrigalisasse pelos passeios publicos ou para os balcões floridos das vizinhas, que não encolhesse os hombros com desdem.
Os que não rissem, por temperamento sombrio e sentimentalesco, ergueriam os braços em clamôr chamando em auxilio da propria opinião a ignorancia das pobres mães e descrevendo, com enthusiasmo lamecha, o encanto duma carta amorosa com erros de ortografia como ironisava dôcemente Gonçalves Crespo, elle que na prática tão flagrantemente mostrou estimar o contrario.
Homens de incontestavel mérito não se pejavam de dizer—que só apreciavam as mulheres para os lavores caseiros, chegando a pôr em duvida a competencia intelectual do sexo feminino, não obstante as tradições gloriosas de excepcionaes, que tem vindo sempre a acompanhar a humanidade na sua evolução social através dos seculos.
Se a um dos mais bem organisados cerebros da geração a que me refiro, ouvi responder a quem citava o enorme talento de George Sand como prova da igualdade intelectual dos sexos—que essa não era mulher, era o diabo!...
Se é do meu tempo, se ouvi muitas vezes, eu mesma, a novos e a velhos, a homens e a senhoras, troçar das doutoras, citar por troça aquelle estupido dictado portuguez da mulher que sabe latim... já V. Ex.a vê o que representa para nós a sua simples confissão de que não ha hoje homem inteligente que não deva ser feminista.
Agora permita-me que explique o meu pensamento, que, certamente por deficiencia de clareza na fórma, não foi interpretado como desejava que o fosse.
O que entendo por—desenvolver livremente as qualidades afectivas na mulher,—é deixar-lhe o pleno direito da escolha, o direito sagrado de amar ou não amar, de casar ou ficar solteira, sem que isso represente uma vergonha ou, pelo menos, um ridiculo.
Entendo que o ser humano que pertence ao sexo feminino, não deve ser coagido pela educação, nem pelos costumes, nem pelas conversas, nem pelos pais—que têm a mania de talhar muito discricionariamente o futuro dos filhos—a vêr no casamento um fim, um ideal completo e único, quasi uma obrigação.
Assim como o homem pode ser professor, jornalista, sabio, artista, empregado, operario, tudo emfim, sem que ninguem lhe pergunte pela certidão do matrimonio, sem embargo de serem quasi todos chefes de familia, não vejo inconveniente a que a mulher procure a sua colocação, tenha o seu curso scientifico, estude, trabalhe para si, para o seu futuro, para a sua vida autonoma, sem se lhe inquirir do seu estado...