II
UMA RESPOSTA[1]

Não imagina V. Ex.a o prazer que me deu a sua carta, sabido como é que da discussão inteligente e sincera têm sahido as mais claras verdades, conhecido como é, por todos os propagandistas, quanto se ganha em fazer interessar pelas nossas opiniões, ainda os adversarios que mais as combatem.

E não sendo V. Ex.a um adversario, mas um confesso adepto, embora moderado, maior prazer o meu em lhe vir expôr serenamente as ideias feministas, tais como as comprehendo e preconíso. Diz V. Ex.a que é feminista, embora moderado, que o é como todos os ilustrados não poderão deixar de o ser, segundo a sua propria frase.

Eis o nosso primeiro triumfo, a nossa principal batalha vencida; tudo mais, creia, é questão de tempo, de paciencia, de serena e pertinaz energia, e de muito bom senso.

Ora aquellas qualidades não faltam ás mulheres, este é que ás vezes tem faltado, e não estamos longe de confessar que faltará ainda por largos annos á maior parte...

Mas, neste ponto, ninguem no nosso paiz poderá lançar á mulher a primeira pedra; culpados dessa falta somos todos e talvez mais o homem do que a mulher, talvez...

Voltando ao assumpto dizia eu, que está ganha a principal batalha do feminismo; efectivamente assim é desde que todos os homens, que se presam de inteligentes, reconhecem a mulher como um sêr quasi autonomo, com direito a pensar, trabalhar e luctar pelo seu proprio ideal. Nós não temos a fazer mais do que expôr ideias, e realisar pela prática as conquistas a que nos julgâmos com direito.

Que victoria imensa não representa essa sua simples frase! Que soma enorme de trabalho intelectual, que acumulação de esforços, para que os homens inteligentes nos concedam a outorga da sua restricta carta constitucional!...