Não haverá pai que se não insurja contra a lei, se vir o marido de sua filha pôr e dispôr da fortuna que lhe deu, e sem que a dôna possa sequer gastar o rendimento. Nenhum que se não indigne se o genro a despresar ou maltratar, se lhe prohibir qualquer intervenção na educação dos filhos, se a não atender nos seus conselhos e opiniões, se a não consultar para os negocios decisivos da sua vida, se por capricho ou vaidade se oposer a que exerça uma profissão honesta que a dignifique a seus proprios olhos, se, emfim, o homem fizer da esposa o que de facto a lei quer que seja—a menor sem vontade nem discernimento, a coisa de que o marido é o senhor, o ser humano pertença absoluta doutro sêr, que devia ser seu igual.

Os homens mais autoritarios e rotineiros como maridos, são, como pais, incapazes de apoiar um estado de coisas que apenas dá por garantia de felicidade á mulher que casa, a bondade, a inteligencia e a tolerancia do marido.

É evidente que, na maioria dos casos, mórmente no nosso paiz onde o homem é bondoso por temperamento, ninguem se importa com a letra do codigo feito para uma sociedade onde a esposa era ainda, ou apenas, uma escrava submissa, sem azas para grandes vôos de vontade nem ansias de libertação.

Nas mãos de um doido ou de um perverso, porém, o que poderá ser a vida da mulher que se volta para a lei e a lei manda-lhe simplesmente e implacavelmente: que obedeça! Que se volta para a sociedade, que lhe ordena hipocritamente: disfarce e submissão! Que se volta para a familia, e essa propria, temendo o escandalo, a violação das conveniencias sociaes, lhe aconselha: que se resigne!

Portanto, ser feminista é o dever de todos os pais. Porque ser feminista não é querer as mulheres umas insexuais, umas masculinas de caricatura, como alguns cuidam; mas sim desejá-las criaturas de inteligencia e de razão, educadas util e praticamente de modo a vêrem-se ao abrigo de qualquer dependencia, sempre amarfanhante para a dignidade humana.


II