Hoje não é assim. Toda a gente aceita uma senhora que tem a profissão de medica, pintora, esculptora, engenheira ou professora, tudo que requer habilitações e estudos publicos, e que lhe tinham ensinado a crêr que nunca poderia atingir por falta de genio criador e persistencia no estudo.
Não se sobresaltem os homens com a concorrencia, que é antes auxilio. Pequena, por mal da humanidade, hade ser sempre a percentagem dos cerebros verdadeiramente superiores em qualquer dos sexos. Não é, pois, justo que por falta de educação se percam aptidões que nem sequer chegaram a manifestar-se, talentos de que nem sequer se suspeita...
Se os mais ardentes sectarios dos velhos preconceitos já chegaram á conclusão egoista de que é preciso educar o povo para que se não percam tantissimos talentos que podem beneficiar a humanidade, não é justo—ainda que não seja senão pelo mesmo motivo—condenar á ignorancia, na mulher, metade dessa mesma humanidade.
Dever-se-ha pensar que Clemence Royer, honra e gloria da França, sabia entre os sabios, espirito todo precisão, clarêsa e método, não teria sido o que foi se, por um mero acaso, tivesse nascido em Portugal ou em outro qualquer paiz, onde, como no nosso, se descure a educação feminina.
As mulheres conservam-se entre nós numa indiferença quasi total pelas conquistas que dia a dia vão marcando um passo de avanço para o triumfo definitivo do espirito sobre a materia, da inteligencia sobre a força, da educação sobre a ignorancia, embora doiradas pela fortuna ou pelos privilegios de classe.
Mas esperemos serenamente, porque á mulher portuguêsa hade chegar tambem a sua vez de comprehender que só no trabalho póde encontrar a sua carta de alforria. Não no trabalho esmagador, exercido como castigo, mas no trabalho que enobrece o espirito, que dá o bello orgulho dos que só contam comsigo e nunca foram um peso para ninguem.
E desde que se torne independente pelo seu proprio esforço, desde que saiba agenciar o pão que come, a casa que habita, os vestidos que veste, sem estar á espera do homem, fonte perene de todo o dinheiro que hoje a sustenta—seja como pai, como marido ou irmão—a sua alforria está decretada.
Uma vez será um artigo do codigo que se modifica (porque as leis devem seguir e não preceder os costumes); ámanhã um preconceito que cahe no desuso; depois um habito que se vence; até que obrigações e direitos se igualem entre as duas metades do genero humano, hôje em guerra sob a aparencia do amôr e do respeito social.
Os proprios homens as ajudarão nesse empenho, porque nenhum ha que não seja feminista se a mulher victimada fôr a sua propria filha, aquella para quem ambicionou maior soma de venturas e de bem estar.
Não ha pai que não aspire a deixar nas mãos de suas filhas, senão um dote em dinheiro—cada vez mais dificil de juntar honestamente, com as necessidades sempre crescentes da vida moderna—pelo menos um dote em educação e aptidões de trabalho que as pônha ao abrigo de toda a servidão.