Emquanto aos rapazes, cedo entregues aos professores que os levam a exame, ficam—graças a Deus—livres de toda a responsabilidade de educadora.
Para com as filhas é mais longa a sua missão, que não é desagradavel a espiritos que ficaram ignorantes das mais singelas regras de alta moral.
Quando as raparigas chegam á idade de procurar marido, ahi dos dezeseis para os dezoito, começa para a mulher o desempenho do papel, annos atrás a cargo da sua propria mãe, quando a acompanhou a todos os divertimentos, aguentou calôres e frios nos passeios da móda, cabeceou pelas reuniões dançantes, fez sacrificios para lhe comprar vestidos vistosos, despojou-se dos seus adornos para enfeitar as filhas, porque—e esta frase é bem caracteristicamente portuguêsa e lança toda a luz no módo de ser e nas aspirações da nossa pobre mulher—já agradou a quem tinha de agradar.
Agora é a vez da filha ir para a amostra, até encontrar senhor. Sujeitam-se a tudo: trabalham, quando não têm criadas, nos mesteres mais humildes, para que as filhas desempenhem o seu papel de princesinhas de contos á espera do principe encantado que as fará soberanas de deslumbrantes reinos imaginarios...
A rapariga, assim preparada, casa emfim, realisa a sua ambição, está finalmente arrumada—como é vulgarissimo dizer-se quando uma noiva passa, sorridente e confiada, dos mimos da casa paterna para os braços de um homem que na maior parte das vezes é quasi um desconhecido.
Pobres dellas!... O que julgam o fim é apenas o principio—da sua árdua missão de mãe de familia.
Deixou de ser uma criatura sem deveres nem responsabilidades, a quem tudo se perdôa e desculpa, para ser a pedra basilar desse sagrado templo que se chama o lar.
Vai sêr a mãe! Vai pertencer-lhe, só a ella, por longos e dolorosos mêses, viver da sua vida, alimentar-se com o seu sangue, sentir pelos seus nervos, um pequenino ser informe que é o seu filho, que será para o futuro um homem ou uma mulher, que poderão ser uns criminosos ou uns santos, doentes ou sãos, devido, em muito, aos cuidados, preocupações e higiene moral e material da mãe.
Nascido para a vida, é ainda o objecto dos seus cuidados e amôr. Treme pela sua fragil existencia, alimenta-o com o seu leite, acalenta-o no seu regaço,—continúa a viver da sua existencia, póde assim dizer-se.
A mãe sente-se satisfeita com esses cuidados que dispensa aos pequeninos seres, que lhe enchem de ternura e de encanto o coração; e, cuida, justamente, que ninguem será capaz de os tratar e amar como ella...