A miseria do Povo

É incontestavel que um certo movimento altruista se propaga pelo paiz—secundando, ainda que frouxamente, o que nos outros se faz—em favôr dos pobres, principalmente da mulher e da criança.

Uma grande revolução se está preparando, e, como todas as grandes revoluções que têm transformado as sociedades, começa por revolucionar almas, formando um núcleo de espiritos que pelo bem dos outros se sacrificam sem esperar pagas nem incentivos de grosseiros interesses.

O mundo antigo, cheio de preconceitos e de injustiças, sente-se derruir, sem bases seguras onde se apoiar—esfacela-se lentamente até uma derrocada ingloria e completa.

A pouco e pouco, aqui e ali, algumas bôas obras de solidariedade humana têm surgido da iniciativa particular, sem que os governos tenham sequer suspeitado da sua existencia.

E bom é que assim seja, porque só a iniciativa particular, persistente, honesta nos seus processos, sem charlatanismos oficiaes nem interesses politicos a desprestigiá-la, póde fazer mais em poucos mezes do que cincoenta annos dos embaraçantes processos de todos os governos.

É della que tudo ha a esperar, é da acção especial dos governados que confiâmos, pois que dos governantes pouco ou nada póde vir neste sentido, nem é justo, verdade seja, que delles se espere tudo, como se um povo não fosse mais do que ingenuo e eterno bébé sugando a mamadeira que lhe apresenta a criadora.

Tudo esperar do poder central é mostrar que nada podemos individualmente, ou que estamos satisfeitos com o pouco que nos concedem.