Seria iniciar o sistema de cooperativas edificadoras, tão usado lá fóra; auxiliar grandes companhias que se propozessem dar casas higienicas e espaçosas por módico preço, aos pobres que não podem continuar a viver como hôje vivem em antros infectos e caros.

É mais do que tudo urgente acabar com a exploração dos senhorios que exigem por casas pessimas, loucas exorbitancias extorquidas asperamente á economia da familia pobre.

Ter o seu lar, a sua casa, onde cada prego representa um esforço de vontade e uma consolação de posse; a casa para onde entram os noivos com a alma florida de esperanças, onde nascem os filhos e se podem abrigar os velhos pais doentes; a casa onde põe todo o seu amôr o operario laborioso, que nas horas vagas cultiva no jardim os cravos e as rosas singelas, planta as hortaliças e levanta a parreira amiga que lhe dá a sombra e o vinho; a casa que a mulher limpa e adorna com esmero, porque é a sua, a companheira e amiga de todas as horas; a casa familiar, que deixa de ser uma coisa inanimada e indiferente para se tornar no grande sonho abençoado dos que vão para longe, e dos que ficam abrigados á sua dôce sombra; é para o trabalhador português uma ambição tão desmedida, que poucos a chegam a realisar.

É desta indiferença do povo que não vive comsigo nem se sabe recolher ao interior da sua habitação, ao seu lar, tornado o seu pequeno e querido universo, que não se identifica com as suas coisas e não lhes toma amôr, é deste viver disperso de povo meridional, que vive do ar e do sol, e num dia de passeata alegre pelos campos encontra compensação para todas as suas miserias; que o senhorio tem abusado elevando disfarçadamente, cada semestre um pouco, as rendas—que são hôje um verdadeiro crime social.

Se fossem precisos exemplos para afirmar uma coisa que toda a gente sabe, Setubal seria, para tudo quanto dizemos, um dos mais flagrantes.

Dotada com um luxuoso sanatorio, nem por isso a doença e a miseria a poupam mais.

A grande miseria da população (de vinte e três mil habitantes) é composta por operarios, dum e doutro sexo, que trabalham nas fabricas de conservas de peixe, de pescadores, e de gente de medianos recursos.

Com a afluencia de trabalhadores de fóra, as moradias têm subido a tal preço que uma só familia não tem recursos para as pagar, acumulando-se duas e três em antigos predios insalubres, dentro de ruas estreitas e nauseabundas, onde mal entram o ar e o sol—os grandes purificadores. Ha casas, se tal nome merecem, onde se não póde andar de cabeça erguida, sob pena de a partir no tecto, e onde a escuridão é quasi absoluta. Casinhotos terreos, ahi pelos suburbios, em que as divisorias são feitas com cortinas de chita, e pelos quais um mísero cavador paga por mês, dois mil réis, isto ganhando—quando ganha—quatrocentos réis diarios.

Ha miseraveis velhinhas pedindo pelas portas para pagarem dez tostões mensais pelo abrigo duma barraca forrada de folha de flandres ferrugenta, despresada pelo fabrico de conservas.