—Asilos para todos os seus velhos?

—Sanatorios para todos os seus escrofulosos e tisicos?

—Escolas para todos os seus filhos?

Nada disso tem, nada disso lhe deram ainda, apesar de tanto que se tem apregoado os beneficios duma liga, que póde ser simpatica como esmola particular e arbitraria duma ou mais pessoas, fazendo pouco porque mesquinhos são os seus recursos, mas que se não deve querer fazer passar por medida de salvação publica...

Todos reconhecem ser pouco o que se tem feito, tão pouco que se torna inutil, para debelar um mal que vem da ruina dum povo e duma sociedade sem orientação; dum mal que está no sangue e no espirito e que ameaça assoberbar tudo e todos.

São incontaveis os escrofulosos, tisicos, anémicos e depauperados na classe pobre. As mulheres definham e morrem como flôres criadas em terra magra, sem ar nem luz; as crianças arqueiam os pobres arcaboiços, onde mal se desenvolvem pulmões predispostos á receptividade do microbio hostil; os homens avelhentam-se e enlividecem, numa aparente senilidade aos vinte ou trinta annos. E tudo porquê?!

Porque a vida é terrivelmente cara em Portugal, e a maior parte da gente não come o que necessita, vive em verdadeiras possilgas, não é preservada devidamente do contagio das molestias que a rodeia, não é iniciada nas mais rudimentares regras de higiene, não é educada de modo a preferir a alimentação e o conforto das casas ao luxo do trajar e demais exteriorisações vistosas.

O caminho a seguir por quem quizesse e pudesse remediar tanto mal, não se limitaria a fundar sanatorios onde se gastam muitos contos de reis e se abrigam, por empenhos, umas desenas de crianças—umas predispostas apenas.

Para essas, mesmo, o bem não é grande e, principalmente, não é duradoiro. Melhoradas pela higiene, pela alimentação e pelos simples remedios reconstituintes, voltam desse conforto e abundancia para a antiga e triste miseria das suas casas, tendo por destino a fatal renovação da doença, logo que deixe de ser combatida, e será agravada com o desespero de se vêrem privadas do bem a que já se haviam gostosamente e metodicamente habituado.

O primeiro passo a dar, para melhorar esta situação angustiosa, seria:—fazer baratear os generos alimenticios de primeira necessidade; estabelecer e auxiliar cooperativas; reduzir os impostos de consumo, que incidem principalmente sobre o pobre que compra a retalho, de modo a que todos pudessem comer quanto é necessario para alimentar uma vida saudavel.