É verdade que ha leis que obrigam os pais a mandar os filhos á escola; mas que monta se essa mesma lei exige dos pequenos estudantes o uso de sapatos, e os pais, não tendo para comer, dispensam muito bem essa exigencia da civilisação?
Fazem-se leis obrigando os pais a mandar os filhos para as escolas; mas que importa isso se para aprenderem precisam de comprar livros, que são carissimos, e elles não têm que lhes sóbre para pão?
Fazem-se leis obrigando os pais a mandar os filhos á escola; mas como poderão estar as crianças umas poucas de horas sem comer, visto que os pais lhes não podem dar merenda e cá por fóra sempre vão apanhando dez reisitos em troca de pequenos serviços, rebuscando, farejando, pedindo como cães vadios, mas comendo afinal?!
Fazem-se leis obrigando os pais a mandar os filhos á escola; mas de que serve isso se a escola é de dia como a oficina e a fabrica, e os pobres não podem dispensar o trabalho das crianças, já ganhando o seu pequeno salario, já ficando em casa com os irmãositos, emquanto as mães vão moirejar por fóra?!
Segue-se pois que a criança do povo está condemnada a uma eterna penitenciaria de ignorancia, se antes da escola não houver a créche, não houver o hospital para parturientes, e, antes do hospital, não houver a maternidade, que é a casa onde a mulher pobre passa com descanço salutar os ultimos mêses da gravidez; se, ao lado da escola, não houver a oficina escolar, o asilo modelo donde a criança, rapaz ou rapariga, sáia preparada para entrar desassombradamente na vida, sabendo ganhar a sua subsistencia pelo oficio que escolheu. Da escola, assim acompanhada, deverá a criança sahir sabendo lêr, escrever e contar, sabendo sobretudo trabalhar metodicamente e com nobre orgulho da sua profissão.
Ora é isto o que os governos, só por si, não pódem fazer se os não auxiliar a bôa vontade e iniciativa particular, já fazendo propaganda entre o povo, já distribuindo livros gratuitamente, fundando escolas e bibliotécas, dando premios ás crianças aplicadas, contribuindo para tornar a casa de estudo artistica e agradavel, ensinando mesmo os professores e fornecendo-lhes maneira de se educarem nobilitando o ensino, por assim dizer.
É da iniciativa particular que devem partir as bôas ideias exequiveis, que o governo será obrigado a auxiliar e adoptar, quando a opinião pública as impônha.
É isto o que é preciso fazer e é isto o que esperâmos vêr realisado em breve no nosso paiz. Porque, ao lado de muitos que usam a caridade mirabolante como orchidea de fantasticas fórmas para espanto das gentes rastejantes, ha lucidos espiritos que fazem o bem pelo bem, como um dever, como um simples acto de justiça.
Porque dever, porque justiça, é pensar nos que têm fóme, nós que nunca lhe sentimos os tormentos; é pensar nos que são ignorantes porque não têm maneira de se educar, nós que nascemos num meio em que nos instruimos sem querer; é pensar nos que sofrem vendo os filhos fenecer e morrer por falta de alimentação e higiene, nós que podemos criar os nossos em melhores condições.
É pensar em todos os que sofrem, sem razão para sofrer,—só porque o acaso os faz nascer num pobre albergue em vez de casa rica ou remediada—mas não para lhes dar a esmola que deprime e desmoralisa, que habitúa o espirito aos favôres do acaso, e que é injusta porque obedece ao arbitrio individual, mas para dar sem distinção nem favôr, a todos, porque todos o merecem, a educação que enobrece, a luz que vivifica, o alimento, o ar, a agua, a casa, a saúde e a alegria emfim, a que todo o ser humano tem direito.