É vulgar encontrar-se na leitura diaria dos jornaes titulos assim alarmantes, sob os quais os reporters juntam á pressa meia dusia de adjectivos ferozes, na narração detalhada de qualquer crime, ou simples tentativa, de infanticidio.
Não ha muito ainda que dois jornaes dos que se dizem mais livres encimavam umas vulgares noticias do genero com os titulos que reproduzimos.
Numa, era a criada de servir que voltava da terra com o filho recem-nascido dentro duma canastra e que o atirára pela janela do vagon em que viajava, se um empregado não evitasse o medonho crime.
A outra era um simples caso de engeitamento, por miseria, tambem por parte duma criada de servir.
Ora quando jornaes avançados, que se dizem desprendidos da rotina e do preconceito, usam para tais casos de tão violentos epítetos, o que não dirão os outros, os arbitros triumfantes do convencionalismo burguês, os fartos interpretes duma sociedade hipocrita, que nas prégas do seu manto de pudicicia abriga crimes mais revoltantes do que os cometidos por esses monstros moraes descriptos com tanto asco!?
Mães desnaturadas, essas miseraveis, decerto! Mas com quanta desculpa a atenuar-lhes a brutalidade do delicto!
E a justiça a que aspirâmos, a justiça nobre e alta que é o objectivo supremo do nosso ideal de nova sociedade melhorada e feliz—quanto é licito ao homem sê-lo, sem cuidados de sobre-posse nem exigencias loucas—a justiça que não se cobre com leis, nem venda os olhos para não discernir, não póde castigar todos os casos pela mesma rigorosa interpretação dos codigos, não deve julgar sem atender ás determinantes e, sobretudo, ao gráu de responsabilidade do delinquente.
Poderemos, acaso, esperar do ignaro e rude trabalhador—que de sol a sol tira dos musculos o esforço que produz o pão do seu alimento e o dos filhos, e á noite, extenuado e brutificado, adormece pesadamente, até que novo sol lhe traga novas canceiras, e alegrias tambem, mas rudes e vulgares como a sua alma deseducada—poderemos, repito, exigir a esse a mesma visão clara, a mesma responsabilidade moral que deve existir no homem culto que no recesso da sua alma pesa e mede os seus actos, conhecendo leis, conhecendo direitos e deveres?!
Poderemos chamar a essas mulheres mães desnaturadas, porque abandonam um filho, que já fôra abandonado pelo pai? Um filho que não seria mais do que um tropeço para a sua vida de trabalho; que hôje lhes custaria a sustentar com a escassa soldada de criadas de servir e ámanhã lhes custaria mais, infinitamente mais, a vestir, a alimentar e a educar?!...