—Queria matá-lo, sinistramente, arremessando-o á linha a toda a velocidade do comboio, por uma noite escura e tragica, como quem alija demasiado pêso na lucta de um naufragio, como quem num esforço se alevanta e sacode dos hombros um fardo com que não póde...

E não era esta exactamente a verdade? Quem ensinou a essas mulheres de vinte annos, abandonadas á propria sorte, pontapeadas pela sociedade, enganadas pelos homens, servindo quem as despresa e maldiz, só toleradas porque são uteis—bestas de carga para criarem e servirem os filhos alheios—quem lhes ensinou a ser mães?

Quem lhes ensinou sequer a ser mulheres, na acepção nobre e alta da palavra, e não tão sómente a femea brutalisada e despresada pelo homem, quando o saciamento matou o desejo carnal?

Quem lhes disse que o fructo que de seus efémeros amôres lhes ficou nas entranhas é um ente crédor a todo o seu respeito—já não digo ao seu afecto, que se não póde obrigar—de que são apenas as depositarias e sobre o qual não têm direito de vida ou de morte, embora da sua propria vida se alimente?!

Quem lho terá ensinado?

A lei, mandando-as depois do crime feito para um presidio ou para uma penitenciaria? Não, porque a lei não ensina os ignorantes, vinga nos culpados os sentimentos conservadores da sociedade que a fabricou.

A lei, cahindo rígida e inexoravel sobre a cabeça de um condemnado, que lhe não conhece o alcance, não converte um criminoso, cria um hipocrita ou um revoltado.

Quem ensinou essas desgraçadas que hôje choram no segredo do aljube,—não de remorso, que não podem sentir, mas de pavôr—que era um crime menor aos olhos da sociedade, que só cura de aparencias, em vez de abandonar ou matar um filho nascido, tê-lo desfeito misteriosamente, quando ainda mergulhado na noite da sua vida uterina, mas com tanto direito á luz e á existencia consciente como depois de nascido?!

É de presumir que tenham tentado primeiro esse crime como tantas que se vêem a braços com uma situação tão absurda e condemnada, quanto é vulgar e desculpavel.