Alguem lhes incutiu na consciencia essas simples noções de sã moral?

Certamente ninguem em tal pensou.

E se o que ellas praticaram, ou tentaram praticar, é um crime abominavel, o outro não o é menos. A diferença está em que um é conhecido, impõe-se pela brutalidade do facto; o outro é ignorado, não se prova facilmente e é praticado a sangue frio por muitas mulheres que se dizem honestas e para as quais a sociedade não ajunta pedras com que as lapíde, nem escancara aljubes onde as sepulte.

—São peores do que as féras—dizem os moralistas que se não pejarão, talvez, de deixar outras mulheres na mesma situação embaraçosa—porque todas as femeas têm o instincto da maternidade e todas, em geral, se sacrificam pelos filhos.

Opinião já feita e que não representa mais do que uma vulgar figura de rétorica, que a sciencia desmente a cada passo.

O instincto não é igual em todos os seres, pois os mais infimos na escala zoologica como os mais superiores individualisam-se no seu modo de sentir.

Se ha caracteristicos proprios a uma certa raça, entre essa mesmo salientam-se individuos cujas qualidades e defeitos são uma negação de todas as regras.

É certo que o instincto da maternidade é um caracteristico de todas as femeas, e, no emtanto, ha muitas, entre os animaes, que matam e até comem os filhos.

Ha mulheres que fazem pelos filhos os mais inacreditaveis sacrificios, tudo lhes dando, tudo achando pouco para elles; como o pelicano, arrancam de si proprias as pennas com que lhes afôfam a existencia. São as instinctivamente mães aquellas que se deixariam matar antes do que vêr maltratar um filho. A javarda ama tanto as suas crias, que persegue até á morte o caçador atrevido que lhe rouba um bacorinho da ninhada; e, no emtanto, algumas ha que os comem, quando a próvida natureza lhes deu mais do que podem aleitar.