Conheci uma criatura que, estando a servir, lançou um filho recemnascido numa cloaca, como quem, enojado, deita fóra um trapo imundo. O que a não impedia de que fosse uma pobre criatura humilde e inofensiva, e de ser para os outros filhos, senão uma bôa mãe no sentido completo da palavra—o que a ignorancia e a pouca inteligencia lhe não permitiam—pelo menos amoravel e dedicada, sacrificando-se para os alimentar e vestir.

O que determinou essa mulher a cometer tão repugnante crime? A circunstancia ocasional de estar bem numa casa donde não queria sahir e da qual seria fatalmente expulsa, conhecido que fosse o seu estado.

O instincto maternal existe, certamente, mas a miseria umas vezes, outras a educação, o egoismo e as exigencias brutais da vida, têm-no obliterado em grande parte das almas femininas. Como se explicaria por outro módo o horror ao filho, que existe, que é flagrante, em quasi todas as mulheres casadas?!

A alegria com que muitas proclamam não terem filhos que lhes dificultem e atropelem a existencia, estarem assim socegadas nos seus lares sem crianças, é uma bem clara próva. A indiferença com que a mulher pobre vê ir para o céo o filho que a sua incuria, quasi sempre, mata, é bem conhecida dos medicos para precisar ser mais frisada.

E isto não é um mal dos nossos dias nem da nossa sociedade, é hôje como hontem, como será sempre.

Á proporção que o individuo se civilisa, isto é: tem a noção mais clara do bem-estar que lhe póde advir não se sobrecarregando com responsabilidades, que nem sempre tem a certeza de cumprir, começa o horror ao casamento e consequentemente aos filhos que o embaraçam.

Isto que nos parece um facto peculiar dos nossos dias, e tanto sobresalta a França, já se deu na Grecia, já se deu em Roma, com maior intensidade ainda, não obstante todas as leis e costumes que compeliam o homem a constituir familia e a dar filhos á republica.

Apesar de tudo, o horror ao casamento manifestava-se, principalmente nas mulheres, que fugiam, pelo celibato, aos encargos da maternidade e ao captiveiro do lar.

Depois, se chamarmos a essas mulheres, que a ignorancia e a miseria desculpam, mães desnaturadas, que palavras achariamos no dicionario para as ricas e ociosas, que ao nascerem os seus filhos os atiram para os braços duma ama, que depois os entregam aos cuidados problematicos das criadas de acaso, e mais tarde os afastam do lar e do conchêgo da familia, como espúrios, para a solidão moral do collegio; não para que estudem e se habituem cedo ao trabalho, mas para que as não incomodem com suas traquinices e turbulencias, nem as envelheçam aos olhos dos estranhos?!